Cadastre seu e-mail para receber as atualizações deste blog.

incluir retirar

1 de mai de 2017

"Dirigir embriagado é brincar de roleta-russa", diz especialista da UnB

Em entrevista ao Correio, o especialista em segurança de trânsito David Duarte reforça a necessidade de punição dura aos infratores como forma de exemplo aos demais condutores.

postado em 26/04/2017 06:00 / atualizado em 26/04/2017 06:51



"Só se muda o comportamento nas vias pela emoção. Esse sentimento é muito mais forte do que a razão. Enquanto as ações de trânsito não envolverem paixão, essa situação não se reverte"

A morte do administrador de empresas Edson Antonelli, 61 anos, na manhã do último domingo, reacendeu o debate sobre a Lei Seca no Distrito Federal e os riscos de consumir álcool antes de pegar o volante. A jovem que atropelou o ciclista, a estudante Mônica Karina, 20, voltava de uma festa. O teste do bafômetro feito pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER) registrou 0,8 miligrama de álcool por litro de ar expelido dos pulmões, quase três vezes o limite considerado para estabelecer crime. Antonelli pedalava na ciclovia da QI 7 do Lago Norte. 

Mônica ficou presa por cerca de 30 horas. Na Justiça, a jovem conseguiu o direito de responder ao processo em liberdade mediante o pagamento de fiança de R$ 5 mil. Em entrevista ao Correio, o especialista em segurança no trânsito da Universidade de Brasília (UnB) David Duarte defende pena severa para quem descumpre a lei e provoca um acidente como esse. Mas revela que o desrespeito é cada vez mais comum. Pesquisas indicam que os jovens continuam bebendo e dirigindo. Correm um risco altíssimo de morrer ou matar.  “Dirigir embriagado é como brincar de roleta-russa. Não vale a pena correr o risco de matar alguém no trânsito. Não vale a pena o risco de deixar alguém paraplégico”, diz.

Que tipo de ação deve ser desenvolvida para atingir os motoristas e, realmente, promover uma cultura de direção mais segura?

A campanha Paz no Trânsito do Correio deu certo por quê? Porque foi movida por uma grande emoção. Só se muda o comportamento nas vias pela emoção. Esse sentimento é muito mais forte do que a razão. Enquanto as ações de trânsito não envolverem paixão, essa situação não se reverte.

Em alguns países, como os Estados Unidos, o condutor é preso quando flagrado alcoolizado. Aqui, apesar de ter previsão legal, isso não acontece, nem quando resulta em morte. Mais rigor na aplicação da lei seria um caminho?

Os americanos são muito duros. Conheço o caso de um brasileiro que ficou preso dois anos, depois de ter se envolvido em um acidente sem vítima num cruzamento. Ele parou, e um carro bateu na traseira dele. A polícia chegou, ele fez o bafômetro e saiu de lá preso. Depois, foi deportado. Ele tinha bebido duas latinhas e não foi o responsável pela colisão. Os europeus seguem outro caminho, o do convencimento. Você não pode beber porque perde os reflexos, a sua percepção fica alterada e isso provoca acidente. No caso do Brasil, a mudança pelo convencimento seria mais eficaz. Não temos infraestrutura judiciária para julgar os crimes de trânsito nem infraestrutura penitenciária que respeite as pessoas. E o Estado, a Polícia Militar, o Detran e o DER não têm força para implantar o Código de Trânsito Brasileiro.

Em relação à embriaguez ao volante, o senhor disse que é preciso esclarecer as pessoas
sobre os efeitos do álcool no organismo e o tempo necessário para o corpo metabolizar a bebida. Há alguma regra que sirva para todos?

Sim. A norma geral é: para cada dose de bebida, a pessoa deve esperar 1 hora para pegar o volante. Independentemente da bebida. Uma tulipa de chope, uma taça de vinho, uma dose de cachaça, não importa. Isso levando em conta que essa pessoa está com o fígado em boas condições.

A nova geração bebe mais e dirige mais alcoolizada? 

Não sei se bebe mais, mas bebe muito. Falo isso com base em pesquisas que fizemos dentro da UnB e pelo que vemos lá. São alunos de diferentes cursos: medicina, jornalismo, ciências sociais. A farra é frequente. De modo geral, eles estão sensíveis a essa questão do álcool e volante, mas a mensagem do Estado não chega a eles. Os alunos são sensíveis a isso, mas o Estado não faz campanhas e, se faz, não são adequadas.

Quem não cumpre a lei não pode exigir do outro. Tem uma frase que eu gosto muito: "No volante, continuemos humanos. Quando dirigimos alcoolizados, os sentimentos humanos estão revoltos, fora de controle"




Antonio Cunha/CB/D.A Press

Nenhum comentário:

Postar um comentário