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24 de jul de 2016

A transversalidade da educação para o trânsito nas escolas tem atingido seus objetivos?

Professora: Eliza Costa Pacheco


Proponho, com este texto, refletir sobre o trânsito como tema transversal na escola. Tenho desenvolvido este assunto em consultoria, em cursos de formação para professores multiplicadores de educação para o trânsito, em palestras e em outros treinamentos que buscam aperfeiçoar os conhecimentos de profissionais que atuam na área de educação para o trânsito.
Os temas transversais, propostos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, são: ética, cidadania, meio ambiente, pluralidade cultural, saúde, orientação sexual e social, trabalho, consumo e temas locais. Os critérios de escolha foram: urgência social, abrangência nacional, possibilidade de ensino e aprendizagem no ensino fundamental, favorecer a compreensão da realidade e a participação social, e devem ser trabalhados nas unidades escolares, no intuito de expressar conceitos e valores, indispensáveis a uma sociedade organizada.

Por tratarem de questões sociais, os Temas Transversais têm natureza diferente das áreas convencionais. Sua complexidade faz com que nenhuma das áreas, isoladamente, seja suficiente para abordá-los. Ao contrário, a problemática dos Temas Transversais atravessa os diferentes campos do conhecimento. Por exemplo, a questão ambiental não é compreensível apenas a partir das contribuições da Geografia. Necessita de conhecimentos históricos, das Ciências Naturais, da Sociologia, da Demografia, da Economia, entre outros. (BRASIL, 1997, p.29)

O trânsito está inserido na vida das pessoas, faz parte da organização da sociedade e por isso precisa ser trabalhado nas escolas. A questão do trânsito é considerada como tema local nos documentos dos Parâmetros Curriculares Nacionais, ou seja, deve ser trabalhado em regiões brasileiras onde o trânsito constitui um problema social grave e urgente.
Sabe-se, no entanto que a necessidade de um trânsito seguro transcorre por todo o território brasileiro, pois mesmo aquele que só vai à cidade de vez em quando, precisa transitar com segurança.
As escolas têm por obrigação, além de construir o conhecimento sobre os conteúdos curriculares, educar os indivíduos para serem cidadãos ativos capazes de conhecer e praticar seus direitos e deveres com responsabilidades.

A perspectiva transversal aponta uma transformação da prática pedagógica, pois rompe a limitação da atuação dos professores às atividades formais e amplia a sua responsabilidade com a sua formação dos alunos. Os Temas Transversais permeiam necessariamente toda a prática educativa que abarca relações entre os alunos, entre professores e alunos e entre diferentes membros da comunidade escolar. (BRASIL, 1997, p. 30)

A escola, sozinha, não muda a sociedade, isso é certo, mas se possibilitar e promover aos indivíduos a reflexão sobre suas atitudes na vida cotidiana da comunidade a qual está inserida se fortalecerá e será vista como espaço de transformação para a construção de um mundo melhor.
A colaboração dos educadores à educação para o trânsito é imprescindível. Eles estão boa parte do tempo com as crianças e com os adolescentes e podem realizar um ótimo trabalho. 
Em 2009, reforçando o indicativo dos Parâmetros Curriculares Nacionais, foi publicado pelo Denatran, através da portaria 147, as Diretrizes Nacionais da Educação para o Trânsito, cujo texto estabelece que o trânsito deve ser trabalhado de maneira transversal na Pré-escola e no Ensino Fundamental. No anexo II das Diretrizes (destinada ao Ensino Fundamental), consta que:

A inclusão do trânsito como tema transversal tem como objetivos:
I - priorizar a educação para a paz a partir de exemplos positivos que reflitam o exercício da ética e da cidadania no espaço público;
II - desenvolver posturas e atitudes para a construção de um espaço público democrático e equitativo, por meio do trabalho sistemático e contínuo, durante toda a escolaridade, favorecendo o aprofundamento de questões relacionadas ao tema trânsito;
III - superar o enfoque reducionista de que ações educativas voltadas ao tema trânsito sejam apenas para preparar o futuro condutor;
IV - envolver a família e a comunidade nas ações educativas de trânsito desenvolvidas;
VI - contribuir para mudança do quadro de violência no trânsito brasileiro que hoje se apresenta;
VII - criar condições que favoreçam a observação e a exploração da cidade, a fim de que os alunos percebam-se como agentes transformadores do espaço onde vivem. (BRASIL, 2009, anexo II, p. 2)

Os objetivos são bastante abrangentes e envolvem a comunidade escolar e a sociedade em busca da diminuição da violência viária por meio de atitudes positivas, seguras e éticas no trânsito, desde a infância.
A transversalidade pode ser a solução para a aplicação do tema trânsito nas escolas, pois as aulas serão ministradas pelos professores da grade curricular, ou seja, por profissionais que possuem a didática para trabalhar com crianças e adolescentes.
Além disso, proporciona um trabalho com continuidade, pois o trânsito pode ser abordado em vários momentos durante o ano letivo (Recomendo que seja quinzenalmente, variando as disciplinas). Enfatizo que é importante que a educação para o trânsito seja permanente, não basta dar aulas ou palestras esporádicas de boas condutas no trânsito, pois, por melhor que seja a atividade, mesmo que tenhamos conseguido um bom índice de aprendizagem, se não falarmos mais no assunto, surgirão outros interesses aos participantes e os conhecimentos adquiridos naquela aula ou palestra poderão desaparecer.
Cabe salientar ainda que para abordar a segurança no trânsito de maneira transversal, os professores não precisam interromper os conteúdos curriculares e podem fazer isso em vários momentos, contextualizando com os conteúdos que estão sendo ensinado aos estudantes. Vejam o exemplo a seguir:
 “Responda: No condomínio de Pedrinho 32 moradores iam sozinhos de automóvel para o trabalho. Resolveram dar carona uns para os outros, colocando quatro pessoas em cada carro. Quantos automóveis foram necessários para levar os 32 moradores do condomínio de Pedrinho para o trabalho? Houve a diminuição de quantos carros nas ruas? ”
Esta atividade pode ser aplicada na disciplina de matemática, pois envolve os conteúdos curriculares correspondentes a divisão e a subtração de números naturais. É uma atividade que deixa uma mensagem ética sobre a responsabilidade de cada um para a diminuição de veículos nas ruas, incentivando a carona entre amigos.
Refletindo, ainda, sobre a questão proposta: “A transversalidade da educação para o trânsito tem atingido seus objetivos? ”, com base em minhas experiências, enquanto professora em vários níveis de ensino e instrutora de cursos de capacitação de professores e profissionais que atuam na área de educação para o trânsito, percebo que há uma “falta de interesse dos professores” relacionada à implementação do trânsito como tema transversal nas escolas. Os motivos para esse desinteresse podem ser vários. Destaco aqui os que considero como principais.
Um deles talvez seja a falta de cobrança sobre o que está estabelecido no artigo 76 do Código de Trânsito Brasileiro – CTB: “A educação para o trânsito será promovida na pré-escola e nas escolas de 1º, 2º e 3º graus” (BRASIL, 1997). Além de não haver fiscalização sobre a cumprimento da lei, o texto do artigo citado deixa em aberto a data para o início deste trabalho educativo. E como, provavelmente, o professor possui diversos assuntos para abordar com os estudantes, dos quais precisa prestar contas, deixa o trânsito (que não é cobrado) para depois.
            Outra causa do desinteresse dos professores em trabalhar o trânsito pode ser a falta de sensibilidade com relação à segurança no trânsito. Sobre sensibilidade, convido-os a refletir a respeito do seguinte argumento de Fernando Pessoa:

Quanto mais alta a sensibilidade, e mais sutil a capacidade de sentir, tanto mais absurdamente vibra e estremece com as pequenas coisas. É preciso uma prodigiosa inteligência para ter angústia ante um dia escuro. A humanidade, que é pouco sensível, não se angustia com o tempo, porque faz sempre tempo; não sente a chuva senão quando lhe cai em cima. (PESSOA, 1986)

Fernando Pessoa esclarece que um indivíduo sensível tem maior capacidade de perceber as pequenas coisas e que a falta de sensibilidade faz a humanidade ficar alheia aos acontecimentos - “[...] não sente a chuva senão quando lhe cai em cima” (PESSOA, 1986, p. 80). Esses argumentos possibilitam uma analogia com o cotidiano no trânsito. Podemos insinuar que pessoas insensíveis não se comovem com a violência viária, porque todo dia há violência viária, e que, provavelmente, a dor pela perda no trânsito é somente sentida quando essas pessoas estão envolvidas.
            É importante que o professor sinta que também é responsável pela segurança viária. É essencial que os educadores tenham conhecimento sobre a necessidade da educação para a segurança no trânsito desde a infância.
Porém, talvez o desinteresse do professor pela educação para o trânsito seja porque associam com o ato de dirigir, ou com a legislação. É possível que “educar para o trânsito" seja interpretado por alguns educadores como “ensinar a dirigir veículo automotor”, ou “ensinar a legislação de trânsito”, e aí se consideram despreparados para realizar tal tarefa.
Considero também, como dificuldade para um trabalho transversal e contínuo do tema trânsito, a falta de materiais didáticos de apoio. Penso que é muito otimismo acreditar que aquela professora, que possui uma carga horária de 40 horas semanais de trabalho, filhos pequenos e marido para dar atenção, irá elaborar atividades transversais de educação para o trânsito.
            Para resolver isso basta distribuir materiais didáticos nas escolas (Só que não).  Se os materiais didáticos que oferecermos não forem adequados ao plano de ensino da disciplina, será que o professor vai usar?
Por exemplo: na sequência do "Manual de educação para o trânsito" consta uma atividade transversal, para a disciplina de ciências naturais, que envolve os conteúdos coluna cervical e cinto de segurança. O professor está trabalhando em ciências naturais, o conteúdo plantas. Será que ele vai interromper seu plano de ensino para seguir a sequência do "Manual de educação para o trânsito"?
            Até o momento, refletimos sobre algumas dificuldades para a implementação do trânsito como tema transversal na escola. É essencial discorrer também sobre algumas ações possíveis que, no meu ponto de vista, precisam ser adotadas para que a transversalidade da educação para o trânsito nas escolas atinja seus objetivos.
Uma das ações é cobrar e acompanhar o cumprimento do artigo 76 do Código de Trânsito Brasileiro, sobre a obrigatoriedade da educação para o trânsito no Ensino Fundamental, Ensino dio e Ensino Superior, bem como indicar metodologias para o desenvolvimento de um trabalho com qualidade.
            Outra ação imprescindível é a oferta de cursos de capacitação para professores. Nestes cursos é preciso sensibilizá-los, ou seja, convencê-los da importância da educação para o trânsito já na infância. É necessário também orientar os professores sobre como desenvolver o tema em suas aulas, indicando conteúdos e metodologias adequados aos diversos níveis de ensino.
É recomendável que, antes da escolha dos conteúdos a serem ensinados aos estudantes, seja realizada uma investigação a fim de verificar a percepção que eles apresentam sobre os riscos no trânsito. Como regra geral, é importante instruir os estudantes a respeitar as leis de trânsito e a possuir atitudes que priorizem a segurança nas vias. É essencial também construir junto aos estudantes valores positivos, como respeito ao próximo, autonomia, preservação da vida, entre outros, para que no futuro venham a ser condutores conscientes de seus direitos e deveres.
            É importante ainda proporcionar aos educadores materiais didáticos de educação para o trânsito, criativos, com atividades transversais adequadas ao nível dos alunos, desenvolvidas em conformidade com o planejamento escolar.
            Para que não pensem que isso é uma utopia, que sou uma sonhadora (na verdade sou uma eterna sonhadora), indico um caminho que pode facilitar a efetivação dessa ideia. Recomendo a inserção de atividades contextualizadas com o trânsito nos livros didáticos, correspondentes às disciplinas curriculares, adotados nas escolas públicas e privadas, em pelo menos três momentos em cada livro.
            Para que o trânsito como tema transversal seja trabalhado com continuidade e qualidade nas escolas é necessário assessoria aos professores durante o processo de ensino e aprendizagem, a fim de acompanhar e orientar o desenvolvimento das atividades.
            Concluindo, é essencial avaliar o processo educativo em todas as etapas, a fim de verificar a percepção e reação dos professores e estudantes, para possíveis adaptações. Sendo assim, provavelmente os objetivos da transversalidade da educação para o trânsito nas escolas serão atingidos e teremos a segurança e fluidez viária como consequência.

Referências
BRASIL. Código de Trânsito Brasileiro. 1997. Disponível em: http://www.denatran.gov.br/ctb.htm. Acesso em: 15 jul. 2016.

________. Departamento Nacional de Trânsito. Diretrizes Nacionais da Educação para o Trânsito na Pré-Escola. Disponível em: http://www.denatran.gov.br/download/Portarias/2009/PORTARIA_DENATRAN_147_09_ANEXO_I_DIRETRIZES_PRE_ESCOLA.pdf. Acesso em: 15 de jul. de 2016.

_______. Departamento Nacional de Trânsito. Diretrizes Nacionais da Educação para o Trânsito no Ensino Fundamental. Disponível em: http://www.denatran.gov.br/download/Portarias/2009/PORTARIA_DENATRAN_147_09_ANEXO_II_DIRETRIZES_EF.pdf. Acesso em: 15 de jul. de 2016.

______. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1997.

PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. Por Bernardo Soares. Seleção e introdução de Leyla Perrony Moysés. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986.

Irene Rios
Mestra em Educação, com a pesquisa: CAMPANHAS EDUCATIVAS PARA O TRÂNSITO: a percepção sensível de jovens e adultos; Especialista em Ambiente, Gestão e Segurança de Trânsito e em Metodologia de Ensino; Graduada em Letras Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa; Consultora e co-autora do projeto “Gincana Cultural de Trânsito”, vencedor do XII Prêmio Denatran de Educação no Trânsito - 2012 - na categoria "Educação no Trânsito - Projetos e Programas"; Presidente da Câmara Catarinense do Livro; Professora universitária de disciplinas na área de Educação para o Trânsito; Autora de artigos e livros sobre Educação para o Trânsito.

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