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29 de jul de 2016

24 de jul de 2016

A transversalidade da educação para o trânsito nas escolas tem atingido seus objetivos?

Professora: Eliza Costa Pacheco


Proponho, com este texto, refletir sobre o trânsito como tema transversal na escola. Tenho desenvolvido este assunto em consultoria, em cursos de formação para professores multiplicadores de educação para o trânsito, em palestras e em outros treinamentos que buscam aperfeiçoar os conhecimentos de profissionais que atuam na área de educação para o trânsito.
Os temas transversais, propostos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, são: ética, cidadania, meio ambiente, pluralidade cultural, saúde, orientação sexual e social, trabalho, consumo e temas locais. Os critérios de escolha foram: urgência social, abrangência nacional, possibilidade de ensino e aprendizagem no ensino fundamental, favorecer a compreensão da realidade e a participação social, e devem ser trabalhados nas unidades escolares, no intuito de expressar conceitos e valores, indispensáveis a uma sociedade organizada.

Por tratarem de questões sociais, os Temas Transversais têm natureza diferente das áreas convencionais. Sua complexidade faz com que nenhuma das áreas, isoladamente, seja suficiente para abordá-los. Ao contrário, a problemática dos Temas Transversais atravessa os diferentes campos do conhecimento. Por exemplo, a questão ambiental não é compreensível apenas a partir das contribuições da Geografia. Necessita de conhecimentos históricos, das Ciências Naturais, da Sociologia, da Demografia, da Economia, entre outros. (BRASIL, 1997, p.29)

O trânsito está inserido na vida das pessoas, faz parte da organização da sociedade e por isso precisa ser trabalhado nas escolas. A questão do trânsito é considerada como tema local nos documentos dos Parâmetros Curriculares Nacionais, ou seja, deve ser trabalhado em regiões brasileiras onde o trânsito constitui um problema social grave e urgente.
Sabe-se, no entanto que a necessidade de um trânsito seguro transcorre por todo o território brasileiro, pois mesmo aquele que só vai à cidade de vez em quando, precisa transitar com segurança.
As escolas têm por obrigação, além de construir o conhecimento sobre os conteúdos curriculares, educar os indivíduos para serem cidadãos ativos capazes de conhecer e praticar seus direitos e deveres com responsabilidades.

A perspectiva transversal aponta uma transformação da prática pedagógica, pois rompe a limitação da atuação dos professores às atividades formais e amplia a sua responsabilidade com a sua formação dos alunos. Os Temas Transversais permeiam necessariamente toda a prática educativa que abarca relações entre os alunos, entre professores e alunos e entre diferentes membros da comunidade escolar. (BRASIL, 1997, p. 30)

A escola, sozinha, não muda a sociedade, isso é certo, mas se possibilitar e promover aos indivíduos a reflexão sobre suas atitudes na vida cotidiana da comunidade a qual está inserida se fortalecerá e será vista como espaço de transformação para a construção de um mundo melhor.
A colaboração dos educadores à educação para o trânsito é imprescindível. Eles estão boa parte do tempo com as crianças e com os adolescentes e podem realizar um ótimo trabalho. 
Em 2009, reforçando o indicativo dos Parâmetros Curriculares Nacionais, foi publicado pelo Denatran, através da portaria 147, as Diretrizes Nacionais da Educação para o Trânsito, cujo texto estabelece que o trânsito deve ser trabalhado de maneira transversal na Pré-escola e no Ensino Fundamental. No anexo II das Diretrizes (destinada ao Ensino Fundamental), consta que:

A inclusão do trânsito como tema transversal tem como objetivos:
I - priorizar a educação para a paz a partir de exemplos positivos que reflitam o exercício da ética e da cidadania no espaço público;
II - desenvolver posturas e atitudes para a construção de um espaço público democrático e equitativo, por meio do trabalho sistemático e contínuo, durante toda a escolaridade, favorecendo o aprofundamento de questões relacionadas ao tema trânsito;
III - superar o enfoque reducionista de que ações educativas voltadas ao tema trânsito sejam apenas para preparar o futuro condutor;
IV - envolver a família e a comunidade nas ações educativas de trânsito desenvolvidas;
VI - contribuir para mudança do quadro de violência no trânsito brasileiro que hoje se apresenta;
VII - criar condições que favoreçam a observação e a exploração da cidade, a fim de que os alunos percebam-se como agentes transformadores do espaço onde vivem. (BRASIL, 2009, anexo II, p. 2)

Os objetivos são bastante abrangentes e envolvem a comunidade escolar e a sociedade em busca da diminuição da violência viária por meio de atitudes positivas, seguras e éticas no trânsito, desde a infância.
A transversalidade pode ser a solução para a aplicação do tema trânsito nas escolas, pois as aulas serão ministradas pelos professores da grade curricular, ou seja, por profissionais que possuem a didática para trabalhar com crianças e adolescentes.
Além disso, proporciona um trabalho com continuidade, pois o trânsito pode ser abordado em vários momentos durante o ano letivo (Recomendo que seja quinzenalmente, variando as disciplinas). Enfatizo que é importante que a educação para o trânsito seja permanente, não basta dar aulas ou palestras esporádicas de boas condutas no trânsito, pois, por melhor que seja a atividade, mesmo que tenhamos conseguido um bom índice de aprendizagem, se não falarmos mais no assunto, surgirão outros interesses aos participantes e os conhecimentos adquiridos naquela aula ou palestra poderão desaparecer.
Cabe salientar ainda que para abordar a segurança no trânsito de maneira transversal, os professores não precisam interromper os conteúdos curriculares e podem fazer isso em vários momentos, contextualizando com os conteúdos que estão sendo ensinado aos estudantes. Vejam o exemplo a seguir:
 “Responda: No condomínio de Pedrinho 32 moradores iam sozinhos de automóvel para o trabalho. Resolveram dar carona uns para os outros, colocando quatro pessoas em cada carro. Quantos automóveis foram necessários para levar os 32 moradores do condomínio de Pedrinho para o trabalho? Houve a diminuição de quantos carros nas ruas? ”
Esta atividade pode ser aplicada na disciplina de matemática, pois envolve os conteúdos curriculares correspondentes a divisão e a subtração de números naturais. É uma atividade que deixa uma mensagem ética sobre a responsabilidade de cada um para a diminuição de veículos nas ruas, incentivando a carona entre amigos.
Refletindo, ainda, sobre a questão proposta: “A transversalidade da educação para o trânsito tem atingido seus objetivos? ”, com base em minhas experiências, enquanto professora em vários níveis de ensino e instrutora de cursos de capacitação de professores e profissionais que atuam na área de educação para o trânsito, percebo que há uma “falta de interesse dos professores” relacionada à implementação do trânsito como tema transversal nas escolas. Os motivos para esse desinteresse podem ser vários. Destaco aqui os que considero como principais.
Um deles talvez seja a falta de cobrança sobre o que está estabelecido no artigo 76 do Código de Trânsito Brasileiro – CTB: “A educação para o trânsito será promovida na pré-escola e nas escolas de 1º, 2º e 3º graus” (BRASIL, 1997). Além de não haver fiscalização sobre a cumprimento da lei, o texto do artigo citado deixa em aberto a data para o início deste trabalho educativo. E como, provavelmente, o professor possui diversos assuntos para abordar com os estudantes, dos quais precisa prestar contas, deixa o trânsito (que não é cobrado) para depois.
            Outra causa do desinteresse dos professores em trabalhar o trânsito pode ser a falta de sensibilidade com relação à segurança no trânsito. Sobre sensibilidade, convido-os a refletir a respeito do seguinte argumento de Fernando Pessoa:

Quanto mais alta a sensibilidade, e mais sutil a capacidade de sentir, tanto mais absurdamente vibra e estremece com as pequenas coisas. É preciso uma prodigiosa inteligência para ter angústia ante um dia escuro. A humanidade, que é pouco sensível, não se angustia com o tempo, porque faz sempre tempo; não sente a chuva senão quando lhe cai em cima. (PESSOA, 1986)

Fernando Pessoa esclarece que um indivíduo sensível tem maior capacidade de perceber as pequenas coisas e que a falta de sensibilidade faz a humanidade ficar alheia aos acontecimentos - “[...] não sente a chuva senão quando lhe cai em cima” (PESSOA, 1986, p. 80). Esses argumentos possibilitam uma analogia com o cotidiano no trânsito. Podemos insinuar que pessoas insensíveis não se comovem com a violência viária, porque todo dia há violência viária, e que, provavelmente, a dor pela perda no trânsito é somente sentida quando essas pessoas estão envolvidas.
            É importante que o professor sinta que também é responsável pela segurança viária. É essencial que os educadores tenham conhecimento sobre a necessidade da educação para a segurança no trânsito desde a infância.
Porém, talvez o desinteresse do professor pela educação para o trânsito seja porque associam com o ato de dirigir, ou com a legislação. É possível que “educar para o trânsito" seja interpretado por alguns educadores como “ensinar a dirigir veículo automotor”, ou “ensinar a legislação de trânsito”, e aí se consideram despreparados para realizar tal tarefa.
Considero também, como dificuldade para um trabalho transversal e contínuo do tema trânsito, a falta de materiais didáticos de apoio. Penso que é muito otimismo acreditar que aquela professora, que possui uma carga horária de 40 horas semanais de trabalho, filhos pequenos e marido para dar atenção, irá elaborar atividades transversais de educação para o trânsito.
            Para resolver isso basta distribuir materiais didáticos nas escolas (Só que não).  Se os materiais didáticos que oferecermos não forem adequados ao plano de ensino da disciplina, será que o professor vai usar?
Por exemplo: na sequência do "Manual de educação para o trânsito" consta uma atividade transversal, para a disciplina de ciências naturais, que envolve os conteúdos coluna cervical e cinto de segurança. O professor está trabalhando em ciências naturais, o conteúdo plantas. Será que ele vai interromper seu plano de ensino para seguir a sequência do "Manual de educação para o trânsito"?
            Até o momento, refletimos sobre algumas dificuldades para a implementação do trânsito como tema transversal na escola. É essencial discorrer também sobre algumas ações possíveis que, no meu ponto de vista, precisam ser adotadas para que a transversalidade da educação para o trânsito nas escolas atinja seus objetivos.
Uma das ações é cobrar e acompanhar o cumprimento do artigo 76 do Código de Trânsito Brasileiro, sobre a obrigatoriedade da educação para o trânsito no Ensino Fundamental, Ensino dio e Ensino Superior, bem como indicar metodologias para o desenvolvimento de um trabalho com qualidade.
            Outra ação imprescindível é a oferta de cursos de capacitação para professores. Nestes cursos é preciso sensibilizá-los, ou seja, convencê-los da importância da educação para o trânsito já na infância. É necessário também orientar os professores sobre como desenvolver o tema em suas aulas, indicando conteúdos e metodologias adequados aos diversos níveis de ensino.
É recomendável que, antes da escolha dos conteúdos a serem ensinados aos estudantes, seja realizada uma investigação a fim de verificar a percepção que eles apresentam sobre os riscos no trânsito. Como regra geral, é importante instruir os estudantes a respeitar as leis de trânsito e a possuir atitudes que priorizem a segurança nas vias. É essencial também construir junto aos estudantes valores positivos, como respeito ao próximo, autonomia, preservação da vida, entre outros, para que no futuro venham a ser condutores conscientes de seus direitos e deveres.
            É importante ainda proporcionar aos educadores materiais didáticos de educação para o trânsito, criativos, com atividades transversais adequadas ao nível dos alunos, desenvolvidas em conformidade com o planejamento escolar.
            Para que não pensem que isso é uma utopia, que sou uma sonhadora (na verdade sou uma eterna sonhadora), indico um caminho que pode facilitar a efetivação dessa ideia. Recomendo a inserção de atividades contextualizadas com o trânsito nos livros didáticos, correspondentes às disciplinas curriculares, adotados nas escolas públicas e privadas, em pelo menos três momentos em cada livro.
            Para que o trânsito como tema transversal seja trabalhado com continuidade e qualidade nas escolas é necessário assessoria aos professores durante o processo de ensino e aprendizagem, a fim de acompanhar e orientar o desenvolvimento das atividades.
            Concluindo, é essencial avaliar o processo educativo em todas as etapas, a fim de verificar a percepção e reação dos professores e estudantes, para possíveis adaptações. Sendo assim, provavelmente os objetivos da transversalidade da educação para o trânsito nas escolas serão atingidos e teremos a segurança e fluidez viária como consequência.

Referências
BRASIL. Código de Trânsito Brasileiro. 1997. Disponível em: http://www.denatran.gov.br/ctb.htm. Acesso em: 15 jul. 2016.

________. Departamento Nacional de Trânsito. Diretrizes Nacionais da Educação para o Trânsito na Pré-Escola. Disponível em: http://www.denatran.gov.br/download/Portarias/2009/PORTARIA_DENATRAN_147_09_ANEXO_I_DIRETRIZES_PRE_ESCOLA.pdf. Acesso em: 15 de jul. de 2016.

_______. Departamento Nacional de Trânsito. Diretrizes Nacionais da Educação para o Trânsito no Ensino Fundamental. Disponível em: http://www.denatran.gov.br/download/Portarias/2009/PORTARIA_DENATRAN_147_09_ANEXO_II_DIRETRIZES_EF.pdf. Acesso em: 15 de jul. de 2016.

______. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1997.

PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. Por Bernardo Soares. Seleção e introdução de Leyla Perrony Moysés. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986.

Irene Rios
Mestra em Educação, com a pesquisa: CAMPANHAS EDUCATIVAS PARA O TRÂNSITO: a percepção sensível de jovens e adultos; Especialista em Ambiente, Gestão e Segurança de Trânsito e em Metodologia de Ensino; Graduada em Letras Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa; Consultora e co-autora do projeto “Gincana Cultural de Trânsito”, vencedor do XII Prêmio Denatran de Educação no Trânsito - 2012 - na categoria "Educação no Trânsito - Projetos e Programas"; Presidente da Câmara Catarinense do Livro; Professora universitária de disciplinas na área de Educação para o Trânsito; Autora de artigos e livros sobre Educação para o Trânsito.

Semáforo Criativo.

Não tem mais desculpa que cole para quem está sem cinto

Tem gente que dá inúmeras desculpas para não usar o cinto de segurança seja como condutor ou passageiro. Esse tipo de postura é inaceitável depois de tanto tempo. Embora a falta do uso do cinto não apareça nas estatísticas como a causa dos acidentes, a verdade é que a falta do seu uso provoca muitas mortes e lesões graves. Boa parte das indenizações pagas pelo DPVAT por morte e invalidez não seriam necessárias caso todos os passageiros e condutores de veículos utilizassem esse item de segurança simples e genial.
 
A função principal do cinto de segurança é proteger os ocupantes, diminuindo as conseqüências dos acidentes. Em muitos casos, o cinto de segurança impede que o ocupante se choque contra o volante, painel e pára-brisa, ou ainda, que seja projetado para fora do veículo. Portanto, o cinto de segurança é eficaz para reduzir as conseqüências de acidentes não somente para o condutor do veículo, mas para todos os ocupantes.
 
O cinto pode contribuir também para evitar um acidente. Quando o condutor é obrigado a fazer uma manobra radical, em função, por exemplo, de um animal no meio da pista, como o cinto o mantém preso ao banco, ele tem mais possibilidades de evitar um tombamento, saída de pista, colisão e retomar o controle do veículo por estar usando o cinto.
 
Da mesma forma, numa freada brusca para evitar uma colisão, quando um passageiro está sem o cinto no banco de trás, ele será projetado para frente, chocando-se com o corpo do condutor, muita vezes provocando um acidente que seria evitado.
 
Há inúmeras pesquisas sobre a importância do cinto de segurança que na média revelam que o seu uso reduz em até 30% as conseqüências fatais em acidentes. Conseqüências graves como traumatismos e perda de visão são reduzidas em até 60% com o uso do cinto de segurança.
 
Apesar da sua importância, ainda existem pessoas que não usam o cinto, especialmente no banco de trás. Muitos motoristas profissionais também são negligentes quanto ao seu uso. Por essa razão, quase todos os dias encontramos no noticiário acidentes com caminhoneiros que são projetados para fora do veículo num tombamento e perdem a vida esmagados pela carroceria do caminhão que tomba sobre seus corpos.
 
Nos ônibus rodoviários de linhas intermunicipais, estaduais e federais, os motoristas costumam alertar os passageiros sobre a importância do uso do cinto por todos os ocupantes. Infelizmente, menos de 10% dos passageiros usam o cinto, apesar do noticiário já ter demonstrado inúmeras vezes as consequências e as mortes causadas por passageiros que estavam no ônibus sem cinto de segurança.
 
O cinto de segurança já está disponível no Brasil há mais de 30 anos e seu uso é obrigatório nacionalmente há quase 20 anos. Portanto, já está na hora de aprendermos a lição. Ninguém pode alegar desconhecer a obrigatoriedade do seu uso. Por isso, defendemos que as autoridades fiscalizem e punam com o máximo rigor quem estiver sem cinto.  A legislação deveria prever ainda a possibilidade de multar o passageiro sem cinto, afinal, é muito difícil para um motorista de ônibus controlar os passageiros, assim como é complicado para o taxista.
 
O que temos certeza é de quem não usa o cinto não dá o devido valor a própria vida, portanto, é bem provável que também não seja responsável com a vida dos demais.
 
Fonte: Viver seguro no trânsito