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7 de jun de 2016

As pessoas bebem e dirigem. Por quê?


Irene Rios

Fonte: www.alcoolismo.com.br
            Para tentar entender porque as pessoas bebem e dirigem, é importante refletir sobre as causas do alto consumo de bebidas alcoólicas em eventos de entretenimento e lazer. Um dos motivos, principalmente para o consumo de cerveja, podem ser as propagandas. Conforme Bertolo e Romera:

Observa-se que atualmente tais propagandas são incansavelmente veiculadas na televisão principalmente em momentos que antecedem aos jogos de futebol dos diversos campeonatos nacionais e internacionais. Tais inserções se dão de dois modos distintos: patrocinando o espetáculo futebolístico ou nas chamadas para o início da partida. As referidas peças publicitárias são veiculadas também nos intervalos das novelas e filmes, podendo ser transmitidas a qualquer horário indiferente do público que esteja assistindo. (BERTOLO; ROMERA, 2011, p. 6).

            As propagandas de cerveja costumam ser criativas e são exibidas em horários com maior audiência na televisão. Possuem uma linguagem que atrai os telespectadores, principalmente os jovens. Além disso, não há restrição de horários para as propagandas de cerveja. Conforme Pinsky:

Hoje, a legislação (Lei 9.294, de 1996) só considera bebida alcoólica aquela com teor alcoólico acima de 13º GL[1], excluindo, portanto, alguns vinhos, “coolers” e todas as cervejas. Isso significa que propaganda de cerveja pode passar a qualquer hora, em qualquer programa. (PINSKY, 2009, p. 11).

Desta forma, até as crianças estão expostas aos anúncios de cerveja, podendo tornar-se futuros consumidores de bebidas alcoólicas. Pinsky adverte sobre a influência da publicidade no consumo de cerveja e faz uma analogia com as campanhas de prevenção ao uso do álcool.

A influência da publicidade no consumo tem, também, uma relação muito mais sutil do que a vontade de ir para o bar logo que se assiste a um comercial. É a imagem que se faz da bebida: a associação entre bebida e bons momentos, alegria, festa, relaxamento, sexualidade. Diante disso, o espaço para trabalhar com a “chata” prevenção é radicalmente diminuído. Em termos quase caricatos poderíamos dizer que a imagem que se passa é: beber é fazer parte, não beber é estar de fora. Beber é libertador, não beber é repressor. (PINSKY, 2009, p. 17).

            Baseados nas palavras de Pinsky, podemos afirmar que o consumo de bebida alcoólica em festas e baladas, ou em outros ambientes de diversão e lazer, faz parte da cultura do ser humano e que as campanhas de prevenção tornam-se insignificantes diante do apelo emocional oferecido pelas propagandas de cerveja. Segundo o autor, as estratégias de publicidade são bem-sucedidas por associarem o consumo da cerveja com “[...] uma série de imagens agradáveis, tornando a mensagem alegre, bonita, erótica ou engraçada” (PINSKY, 2009, p. 54). Ele argumenta, ainda, que:

Assim, o indivíduo exposto tenderá a associar o consumo do álcool com prazer sempre que se colocar em uma situação ou ambiente que recorde as cenas “vivenciadas” na publicidade ou sempre que necessitar buscar essas vivências para reequilibrar-se psiquicamente. Em qualquer uma das duas situações, o consumo do álcool surge como parte do quadro, seja por seus efeitos psicológicos, seja por seus efeitos psicotrópicos. Junte-se a isso o fato de que mensagens de prevenção, de contenção, de moderação podem ser associadas imediatamente a proibições e restrições: “Não beba e dirija”, “Não beba se tem menos de 18 anos”, “Não beba demasiadamente”. Entre a festa e a proibição, entre a liberdade e a transgressão, o que será que um adolescente prefere? (PINSKY, 2009, p. 55).

Podemos observar que a publicidade tem como meta o convencimento do público. Para isso, tem procurado mexer com a sensibilidade em vez da razão, demonstrando que o consumo de cerveja proporciona momentos emocionantes de prazer e de descontração.
É o uso do sensível para atrair o público para o consumo de cerveja. Hábito que combinado com a direção representa um grande risco à sociedade. Entretanto, vamos olhar essa situação pelo ângulo positivo - se o sensível é capaz de persuadir o público ao consumo de cerveja, pode ser capaz, também, de prevenir para tal uso combinado com a direção de veículo automotor.
Retornando aos motivos que, provavelmente, incentivam o consumo de bebidas alcoólicas, convém destacar as músicas sertanejas. Lioto (2012, p. 18), em uma pesquisa realizada com 48 cantores do gênero sertanejo, constatou que apenas sete não possuíam nenhuma música abordando a bebida alcoólica. 85% das duplas abordam o tema em pelo menos uma canção.
Cabe aqui um exemplo de música com esta temática: Balada Louca, da dupla Munhoz & Mariano. O vídeo com o clip oficial da música, publicado em 5 de maio de 2012, com mais de 34 milhões de visualizações no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=ndb3uaGdy28)

Meu Deus do céu / Aonde é que eu to? / Alguém me explica, me ajuda por favor / Bebi demais na noite passada / Eu só me lembro do começo da balada / Alguém do lado aqui na mesma cama / Nem sei quem é mais ta dizendo que me ama / Cabeça tonta, cheirando cerveja / O som no talo só com moda sertaneja / Cadê meu carro? / Cadê meu celular? / Que casa é essa? Aonde é que eu vim para? / O sol rachando já passou do meio dia / Daqui não saio, daqui ninguém me tira / Achei meu carro dentro da piscina / E o celular no micro-ondas da cozinha / DJ mais louco que o padre do balão / Remixando até as modas do Tião / Dá um remédio preciso melhorar / Que pelo jeito a festa aqui não vai parar. (TERRA, 2013).

            Conforme observamos, o cantor relata que foi para a balada, bebeu demais, que não lembra onde está, com quem está e nem o que fez na noite anterior. Há a insinuação que ele dirigiu após beber, pois encontrou o carro na piscina. No clip, toda essa situação é posta como uma grande festa, repleta de diversão, sem hora para acabar, e o remédio para curar a ressaca é mais cerveja.
            Os bares, as festas e as baladas costumam ser animadas por diversas músicas semelhantes a essa, que estimulam o consumo de bebidas alcoólicas. Conforme Lioto (2012, p. 113): “Entre as promessas feitas pela música, estão: beba e seja livre, beba e se divirta sem limites e beba e tenha mulheres”. Situações postas por cantores, muitos deles considerados ídolos pelos jovens, como comuns, rotineiras, sem consequências.
Observamos que as propagandas de cerveja e as músicas podem influenciar o uso de bebidas alcóolicas nas festas, bares e baladas e que, muitas pessoas que estão nesses ambientes provavelmente dirigem após beber. Talvez, se os conteúdos das propagandas e das músicas que incentivam o uso de bebidas alcoólicas forem avaliados e censurados, tenhamos mais êxito nas campanhas de educação para o trânsito e, consequentemente, a mudança de comportamento das pessoas que bebem e dirigem.

Referências
BERTOLO, Mayara; ROMERA, Liana. Cerveja e publicidade: uma estreita relação entre lazer e consumo. Licere, Belo Horizonte, v. 14, n. 2, jun/2011.
PINSKY, Ilana. Publicidade de bebidas alcoólicas e os jovens. São Paulo: FAPESP, 2009.
LIOTO, Mariana. Felicidade engarrafada: bebidas alcoólicas em músicas sertanejas. Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual do Oeste do Paraná, 2012.
TERRA. Letras.mus.br. Top Músicas. 2013. Disponível em: . Acesso em: 7 out. 2013.

Irene Rios 
Mestra em Educação, com a pesquisa: CAMPANHAS EDUCATIVAS PARA O TRÂNSITO: a percepção sensível de jovens e adultos; Especialista em Ambiente, Gestão e Segurança de Trânsito e em Metodologia de Ensino; Graduada em Letras Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa; Consultora e co-autora do projeto “Gincana Cultural de Trânsito”, vencedor do XII Prêmio Denatran de Educação no Trânsito - 2012 - na categoria "Educação no Trânsito - Projetos e Programas"; Presidente da Câmara Catarinense do Livro; Professora universitária de disciplinas na área de Educação para o Trânsito; Autora de artigos e livros sobre Educação para o Trânsito.


[1] Graus Gay-Lussac: indicam a percentagem de álcool que uma mistura contém. Mede-se segundo a quantidade de álcool existente para cada 100 litros da mistura. Assim, uma mistura de 11º GL tem 11 litros de álcool puro para cada 100 litros de mistura. (PINSKY, 2009, p. 11). 

[2] O vídeo com o clip da música pode ser encontrado no seguinte endereço: http://www.youtube.com/watch?v=ndb3uaGdy28 – Acesso em 06/06/2016.

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