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22 de out de 2014

A Sensibilidade e o Trânsito

Irene Rios

[...] na rua não vemos sentimentos ou nos sensibilizamos com rostos e atitudes, mas enxergamos simplesmente posições sociais: formas corporais, feiuras ou belezas, roupas e signos profissionais ou de posicionamento social.
Roberto da Matta
           
Matta (2010) provoca-nos a pensar e a indagar sobre o que vemos no trânsito, sobre o quanto as pessoas preocupam-se apenas com aparências e status, sem prestar atenção no outro, tratando-os com indiferença. Essas atitudes demonstram a falta de sensibilidade dos cidadãos quando estão transitando.
Vanderbilt (2009) reforça a afirmação de Matta ao enfatizar que a simples ação da troca de olhares entre os usuários das vias é considerada uma dificuldade para muitos.

Pelo fato de o contato visual ser tão raro no trânsito, quando ele acontece a sensação pode ser de desconforto. Você já parou em um sinal e “sentiu” que alguém em um dos carros ao lado estava olhando para você? Provavelmente ficou incomodado. A primeira razão é que isso pode violar o senso de privacidade que sentimos no trânsito. A segunda é que não há propósito algum para isso, tampouco uma reação neutra apropriada, uma condição que pode provocar uma reação de lutar ou fugir. Então, o que você fez no cruzamento quando viu alguém olhando para você? Se acelerou, você não foi o único. (VANDERBILT, 2009, p. 28).

As situações citadas por Vanderbilt (2009) fazem parte de uma cultura em que prevalece o individualismo, o hábito de nos ocuparmos apenas conosco, com o que nos convém - situações cada vez mais presentes na vida contemporânea. Estamos tão acostumados à insensibilidade no trânsito que, quando percebemos que alguém está nos olhando, nesse ambiente, ficamos incomodados e procuramos afastar-nos dessa situação. Contudo, o que nos faz agir dessa maneira, sem olhar, sem sentir, sem perceber e sem refletir sobre o que está em nossa volta? Talvez a pressa do dia a dia causada, geralmente, pelo excesso de tarefas, faze-nos correr contra o tempo. Parece que se pararmos para a travessia de um pedestre vamos perder tempo.
Outro motivo que pode influenciar a nossa falta de sensibilidade é a insegurança emanada pelas características da modernidade. Nosso cotidiano está repleto de casos que nos assustam e nos deixam inseguros. Duarte Jr. (2001) cita algumas dessas ocorrências:

[...] a situação afigura-se delicada e perigosa, com seus múltiplos sintomas a nos rodear: desequilíbrios ambientais, ameaças de acidentes e guerras nucleares, venenos e poluição empestando o ambiente, efeito estufa, hordas de famintos, exércitos de sem-terras e sem-tetos, fanatismos, assaltos, sequestros, violência gratuita, atentados terroristas, doenças misteriosas e letais, etc. (DUARTE JR., 2001, p. 72).

São situações que provocam, além do medo e da insegurança, a falta de confiança nas pessoas que não conhecemos. É como se o outro representasse uma ameaça à nossa luta diária pelo poder, pelo prazer e pela sobrevivência. Ignorá-lo, então, seja no espaço do trânsito, ou em outros espaços, significa um “cuidado de si”.
Por outro lado, muitas vezes, há resistências às experiências estéticas, ou seja, às situações que envolvem a percepção sensível e as emoções, devido ao hábito de se ver o mundo de modo prático. Cabe aqui, novamente, o esclarecimento de Duarte Jr. (2001) sobre a diferença do olhar estético e o modo prático de ver o mundo.

O modo prático de ver o mundo orienta-se movido pelas questões “o que posso fazer com isto e que vantagens posso obter disto?”, ao passo que o olhar estético não interroga, mas deixa fluir, deixa ocorrer o encontro entre uma sensibilidade e as formas que lhe configuram emoções, recordações e promessas de felicidade. Desta maneira, do topo de uma montanha, ao observar o rio que lá embaixo serpenteia pelo vale, o olhar poético pode apreendê-lo enquanto metáfora da vida sempre a correr num cenário natural, enquanto o modo prático de enxergar provavelmente se porá a investigar as possibilidades de ali ser construída uma barragem que alimentaria uma lucrativa usina hidrelétrica. (DUARTE JR., 2001, p. 102).

“O modo prático de ver o mundo” (DUARTE JR., 2001) pode ser identificado também no trânsito - espaço disputado por pessoas, muitas delas apressadas, preocupadas com o tempo e com o seus objetivos individuais. Seres humanos que, talvez, por olharem o mundo de modo prático, ao perceberem que não há fiscalização na rodovia, tiram proveito disso em prol de seu benefício, cometendo infrações como dirigir em alta velocidade, falar ao celular ao volante, estacionar sobre as calçadas.
Em uma analogia com o exemplo citado por Duarte Jr., podemos fazer a seguinte suposição: se formos fazer uma pesquisa a fim de obter sugestões para a melhoria na mobilidade urbana, provavelmente o indivíduo que vê o mundo de modo prático, sendo motorista, irá afirmar que é preciso construir mais faixas de tráfego, aumentar a quantidade de vagas de estacionamento e alargar os leitos, nem que, para isso, seja necessário o estreitamento das calçadas, destinadas aos pedestres. Sendo pedestre, este, possivelmente, irá sugerir que as calçadas e os canteiros centrais das rodovias sejam mais largos, mesmo que, para isso, seja necessário o estreitamento dos leitos. Caso essas pessoas pesquisadas tenham um olhar estético, provavelmente, independentemente se na condição de motorista ou de pedestre, irão fazer sugestões em prol do bem comum, pois se deixarão levar pela percepção sensível.
Ver o mundo apenas de modo prático, além da insensibilidade, estimula a falta de honestidade e a falta de solidariedade - valores indispensáveis no ambiente do trânsito. Olhar para o outro procurando apenas obter vantagens, preocupar-se só com as questões sociais e práticas, torna os cidadãos mais individualistas e incapazes de conviver em um espaço compartilhado, como o das vias. Além disso, essa praticidade incentiva a falta de harmonia, de tranquilidade e de segurança no trânsito.
Por outro lado, olhar o mundo e dar oportunidade para o sentimento fluir, permitindo que os sentidos atuem, poderá proporcionar profundas emoções, importantes reflexões e grandes transformações. Por isso, a importância de uma educação para o trânsito que comova o público alvo e que provoque a reflexão sobre as consequências das atitudes nas vias.

REFERÊNCIAS
DUARTE JR., João Francisco. O sentido dos sentidos. Curitiba: Criar, 2001.

MATTA, Roberto da. Fé em Deus e pé na tábua. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

VANDERBILT, Tom. Por que dirigimos assim?: e o que isso diz sobre nós. Rio de Janeiro: Campus, 2009.

Irene Rios
Mestra em Educação, com a pesquisa: CAMPANHAS EDUCATIVAS PARA O TRÂNSITO: a percepção sensível de jovens e adultos; Especialista em Ambiente, Gestão e Segurança de Trânsito e em Metodologia de Ensino; Graduada em Letras Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa; Consultora e co-autora do projeto “Gincana Cultural de Trânsito”, vencedor do XII Prêmio Denatran de Educação no Trânsito - 2012 - na categoria "Educação no Trânsito - Projetos e Programas"; Presidente da Câmara Catarinense do Livro; Professora universitária de disciplinas na área de Educação para o Trânsito; Autora de artigos e livros sobre Educação para o Trânsito.

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