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31 de dez de 2013

Acidentes são a principal causa externa de internações no país


Mariana Czerwonka
Portal do Trânsito
Acidentes causam internações

Dados da Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação revelam que esses acidentes são responsáveis por 44,8% das internações nas cinco unidades da Rede

Levantamento mais recente realizado pela Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação mostra que, de todas as causas externas, os acidentes de trânsito são os maiores responsáveis pelas internações nas unidades da Rede (Brasília, Salvador, Belo Horizonte, São Luís e Fortaleza). Entre 1º de janeiro e 30 de junho deste ano, eles representaram 44,8% das origens que motivaram a chegada e permanência dos pacientes nos hospitais. As agressões por arma de fogo aparecem em segundo lugar e respondem por 21,1%. Depois, as quedas, com 16,3%.

Dados do Ministério da Saúde revelam que os acidentes de trânsito causaram 161,7 mil internações em todas as unidades de referência em alta complexidade no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2012. E o número tem aumentado nos últimos três anos. Em 2011, o Brasil teve 155,7 mil internações e, em 2010, 147,7 mil. Só em 2011, 42.425 pessoas perderam a vida no trânsito. E os custos com os tratamentos são cada vez maiores: em 2010, foram R$ 190,3 milhões, no ano seguinte, R$ 204,6 milhões, e, em 2012, R$ 215,2 milhões.

O atleta profissional da Seleção Brasileira Paralímpica de Tênis de Mesa Bruno de Paula Peres Braga, 22 anos, foi uma dessas vítimas. Em 31 de agosto de 2007, uma quinta-feira, Bruno, à época tenista de quadra, depois de treinar durante o dia e a noite, voltava para casa com seu pai por volta de meia-noite. O pai conduzia o veículo quando adormeceu ao volante (ele sofre da doença do sono). O carro se chocou contra uma mureta próxima ao Aeroporto Internacional de Brasília. O condutor teve três costelas quebradas e três fraturas no braço. Bruno, que decidiu dormir no banco traseiro e estava sem cinto de segurança, perdeu todos os movimentos do corpo. “Só acordei uma semana depois, sem mexer nada”, lembra.

Bruno ficou internado um mês em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e depois foi transferido para a unidade centro de Brasília da Rede Sarah, onde ficou por dois meses e meio. Em casa, Bruno ficou durante 15 dias, realizou diversas sessões de fisioterapia e, aos poucos, aprendeu o cotidiano de uma cadeira de rodas. Depois, ele voltou à unidade da Rede Sarah e permaneceu por mais dois meses e meio.

Embora, à primeira vista, a cadeira de rodas possa causar impacto ou rejeição no paciente, a coordenadora do Programa de Prevenção de Acidentes das unidades de Brasília da Rede Sarah, Claudia Miani, ressalta que o equipamento não pode ser visto apenas como uma “perda de movimentos”, mas, em muitos casos, ela é um sinal de evolução de um quadro que foi muito grave, como é o caso de Bruno, que ficou tetraplégico.

“A gente pensa que nunca vai acontecer com a gente. Até acontecer e a gente para pra pensar”, conta o atleta. Para ele, a irresponsabilidade é a causa da maioria dos acidentes de trânsito. “A gente sabe que tem que usar o cinto, que tem que fazer a coisa certa, mas acaba fazendo a coisa errada. E, numa dessas, a gente acaba se dando mal“, acredita Bruno.

O caso do atleta entra no rol do segundo meio de locomoção que mais se envolve em acidentes. De acordo com os dados da Rede Sarah, automóvel, utilitário e caminhonete responderam por 37,8% dos históricos de pacientes recebidos por aquele hospital envolvidos em acidentes de trânsito. Em primeiro lugar, estão as motocicletas, com 47%.

Diferentemente do acidente que resultou na tetraplegia de Bruno, a maioria das ocorrências com automóveis é nas rodovias (75,7%). Nas vias urbanas, os pacientes se feriram, majoritariamente, enquanto eram condutores ou passageiros de motocicletas (47,4%) e bicicletas (48,3%).

O caso de Bruno também difere da maioria, quando diz respeito a dia, horário e motivo. Quase a metade (47,6%) dos acidentes analisados ocorreu no sábado e no domingo. A maioria (54,1%) dos acidentes ocorreu no período diurno, com picos entre 7h e 8h e entre 17h e 20h. O principal motivo do deslocamento dos pacientes na ocasião em que ocorreram os acidentes foi o lazer (53,3%).


Bruno partilha da mesma opinião da maioria dos pacientes analisados pelo levantamento da Rede Sarah. Para 76,2%, os comportamentos ou as atitudes humanas foram a causa que originaram os seus acidentes. “O meu pai sofre da doença do sono e eu sei disso desde quando nasci. Eu sempre ia no banco da frente para cutucá-lo e não deixá-lo dormir. Infelizmente, nesse dia, foi diferente. Eu.sabia que eu tinha a minha responsabilidade de ir no banco da frente, mas não fui”, recorda. Ele conta que foi preciso trabalhar o psicológico do pai para lidar com a situação e que hoje a família tem uma relação tranquila e saudável.

Rodovias federais / Cinto de segurança
Dados mencionados pelo coordenador-geral substituto de operações da Polícia Rodoviária Federal (PRF), inspetor Estênio Pires, confirmam informações da Rede Sarah. ”Fizemos um estudo e ele revela que 92% dos acidentes são ocasionados por falha humana”, afirma.

Para ele, a imprudência ou a imperícia dos condutores são a principal causa dos acidentes verificados nas rodovias federais. E a velocidade é a responsável, segundo o coordenador, pelo maior envolvimento de acidentes de veículos nas estradas e não nas vias urbanas. ”A velocidade empreendida contribui para a gravidade da ocorrência, com a probabilidade de maiores lesões ou fatalidades”, relata.

Pires afirma que o tipo mais grave de acidente verificado nas rodovias federais é a colisão frontal. “Apesar de serem apenas 3% dos acidentes registrados, as colisões frontais são responsáveis por 32% das mortes”, esclarece. Normalmente, esses acidentes são causados por ultrapassagens indevidas, isto é, imprudência ou imperícia.

Outra questão para a qual ele chama atenção é o cinto de segurança. Assim como o para-atleta Bruno de Paula, os passageiros do banco traseiro não têm muito o costume de usar a proteção. Segundo o coordenador da PRF, é diferente do que se constata nos bancos dianteiros, onde já se tornou hábito da população a utilização do cinto. ”A gente tem verificado que a gravidade dos acidentes é maior quando condutores e passageiros não usam cinto ou capacete, no caso das motocicletas”, afirma.

Segundo Pires, para cada 100 veículos envolvidos em acidentes nas rodovias federais, um condutor morre, com ou sem cinto de segurança (não há dados separados). No caso das motocicletas, para cada 100 acidentes, 12 que usam capacete morrem. Sem a utilização dos capacetes, o número chega a 55.

A coordenadora do Programa de Prevenção de Acidentes das unidades de Brasília da Rede Sarah, Claudia Miani, também alerta para o uso do cinto de segurança como forma de reduzir as possibilidades de maiores lesões. Segundo ela, no ano passado, 67,5% dos pacientes admitidos na Rede e vitimados no trânsito não usavam o cinto na ocasião do acidente. “Ainda precisamos trabalhar incessantemente em informação, pois precisamos desconstruir hábitos errados”, propõe.

Para ela, é necessário transmitir a ideia de vulnerabilidade para que as pessoas se protejam. “Somos frágeis, então, todos os cuidados devem ser adotados para preservar nossa integridade física e emocional”, explica.

Informações da PRF classificam os acidentes também conforme as lesões. Segundo dados de 2011, informados pelo coordenador Estênio Pires, as lesões leves correspondem a 67% das vítimas. As lesões graves, normalmente as que deixam sequelas para condutores ou passageiros, equivalem a aproximadamente 25%. “É realmente um número muito grande, quase que se aproximando a 30 mil pessoas por ano que sofrem consequências graves”, diz Pires. As vítimas fatais são 8% dos acidentados. Em números absolutos, a PRF registrou 192.188 mil acidentes nas rodovias federais, com 8.661 mortes, 77.626 vítimas com lesões leves e 28.981 vítimas com lesões graves.

Álcool
Estudo divulgado, no início deste ano, pelo Ministério da Saúde revela que o consumo de álcool por pessoas envolvidas em acidentes de trânsito tem forte impacto nos atendimentos de urgência e emergência do SUS. O levantamento aponta que uma em cada cinco vítimas de trânsito atendidas nos pronto-socorros brasileiros ingeriu bebida alcoólica, o que relaciona a substância a 21% dos acidentes de trânsito. Entre as pessoas envolvidas nos acidentes, 22,3% dos condutores, 21,4%, dos pedestres e 17,7% dos passageiros apresentavam sinais de embriaguez ou confirmaram o consumo de álcool. Além disso, o estudo conclui que o uso de álcool resulta em eventos mais graves com mais internações. Em termos gerais, 78,3% das vítimas (acidentes de trânsito, quedas, agressões etc) que não ingeriram bebida alcoólica receberam alta logo após o atendimento de urgência e emergência. Entre os que beberam, esse número cai para 66,2%.

O para-atleta Bruno de Paula, nos cinco meses em que ficou internado em uma unidade da Rede Sarah, viu que a maioria dos pacientes que ali estava era devido a acidentes de trânsito causados por imprudência ou ingestão de álcool. “O álcool é a pior droga que existe porque mata muita gente no trânsito e, se não mata, lesiona uma pessoa, a deixa numa cadeira de rodas, com sequelas na cabeça”, acredita Bruno.

O inspetor da PRF Estênio Pires ressalta também que o álcool contribui consideravelmente para o maior número e maior gravidade dos acidentes. Segundo o coordenador, os acidentes mais graves verificados nas rodovias federais ocorrem principalmente de sexta-feira a domingo, dias em que, geralmente, ingere-se mais álcool. “No domingo, inclusive, chega a ser o dobro do número de mortes registradas numa quarta-feira”, aponta.

Prevenção
Alertar para os perigos resultantes da imprudência no trânsito é um dos trabalhos da Rede Sarah. O objetivo é informar os jovens estudantes sobre o que ocorre no trânsito e despertar a cidadania e o respeito pelo próximo. Para isso, são realizados palestras, exibição de vídeos e animação nas escolas. “Precisamos mostrar a importância do cuidado com a vida, um bem precioso, que nem sempre teremos uma segunda chance para voltar atrás e corrigir os atos e comportamentos de risco”, explica a coordenadora do Programa de Prevenção de Acidentes das unidades de Brasília da Rede Sarah, Claudia Miani.


Esse é um pensamento partilhado pelo para-atleta Bruno. “Eu costumo dizer que a vida é feita de escolhas. Eu não creio que seja o destino que torna a nossa vida boa ou ruim. A gente pode escrever o nosso destino. E, para isso, a gente tem que fazer as escolhas, certas ou erradas. Dependendo disso, as consequências virão. Você tem que optar pelos caminhos que você quer trilhar na sua vida. Você que trabalha no trânsito, com entrega, com carro, pensa um pouquinho, tenha um pouquinho de paciência, ajude o próximo. Costumo ver no trânsito, em alguns carros, o adesivo “gentileza gera gentileza”. Se cada um fizer o seu pouquinho, todos nós temos a ganhar. E só melhora o trânsito e a vida em si”, acredita.

Com informações da Agência CNT de Notícias

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