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23 de mar de 2013

O adestramento no ensino da direção veicular reflete os altos índices de reprovação nos testes de direção


Os altos índices de reprovação nas autoescolas está tão difícil de controlar no Brasil que em alguns estados os CFC já estão na mira do Ministério Público. O Parquet entrou na briga agora, só que considera que 20 horas/aula de prática é insuficiente para aprender a dirigir e sugere que se aumente para 40 horas/aula.
 Lá em Minas Gerais o mesmo Ministério Público acusa o Detran de não cumprir com a fiscalização nos exames práticos de direção ao mesmo tempo em que promete endurecer a fiscalização em cima das autoescolas para que se faça cumprir a Resolução 358/10 do CONTRAN. Tal Resolução dispõe o seguinte: ou as autoescolas aprovam mais de 60% dos seus alunos nos testes práticos de direção ou perdem o credenciamento.
 A gravidade do problema fica ampliada pela declaração do diretor de habilitação do Detran/MG de que se a lei fosse cumprida todas as autoescolas teriam de ser fechadas, principalmente pelos altos percentuais de reprovação.
 Ora, senhores leitores e profissionais ligados ao processo de habilitação no Brasil, colocar a casa em ordem tomando apenas medidas administrativas no âmbito dos CFC para não perder o credenciamento é mole. Difícil mesmo é rever, atualizar e ajustar a parte pedagógica do processo de habilitação.
 Não adianta aumentar a carga horária das aulas práticas enquanto não se mudar os métodos arcaicos de ensino e de aprendizagem da direção veicular no Brasil. Porquê? Porque são métodos tradicionais, que ainda se baseiam no modelo ultrapassado de ensino baseado na memorização, no "decorar para a prova" tanto na parte teoria quanto na parte prática.
 Como se ensina a estudar para a prova teórica? Com decoreba de apostilas e pouco papo sobre incorporar o enunciado das questões? Sem analisar as situações cotidianas no nosso trânsito à luz do CTB e do comportamento humano no trânsito?
 E para a prova prática, como formar condutores para um trânsito cada vez mais caótico que exige condutores autônomos, seguros, com conceitos bem construídos sobre o ato de dirigir, a direção defensiva e a aprendizagem significativa se ainda se ensina a decorar as voltinhas de volante para a baliza? Os tempos são outros, a tecnologia dos carros evoluiu e ainda continua-se a ensinar o ponto de saída do carro dependendo de tremidinha de volante?
Será que é assim que ainda se pensa e se pratica a formação de condutores no Brasil? Então, não há nada de anormal nos índices altíssimos de reprovação nos testes práticos de direção. Os resultados apenas demonstram e refletem a correspondência e a ineficiência dos métodos de ensino e aprendizagem da direção veicular. O que existe de anormal é ter estampado na cara da sociedade todos os dias que esses métodos ultrapassados de ensinar a dirigir já não funcionam mais e ainda continuam sendo praticados, preservados e justificados com cortina de fumaça.
 O mais grave nisso tudo é a necessidade de mudança, de revisão dos métodos pedagógicos para que se deixe o adestramento do aluno de lado e se passe a investir num ensino com acolhimento emocional ao aluno, com aprendizagem significativa, com construção de conceitos e de significados sobre o ato de dirigir.
 Já quanto as críticas de que o aluno passa mais tempo na sala de aula do que praticando também não justificam as altas reprovações porque é absolutamente necessário conhecer a legislação de trânsito, aprofundar as noções de ética, de cidadania, de valores de convivência porque no dia a dia o que vemos é muita gente boa de volante, com anos de experiência, que sabe dominar o carro, mas que ainda assim se envolve em acidentes de trânsito mais do que os motoristas iniciantes.
 A questão do medo de dirigir e do medo de ser avaliado como propõem alguns psicólogos pode ajudar a explicar as principais causas que interferem na reprovação, mas também não as justificam por completo. No mínimo, indica que se repense a parte pedagógica, os planos pedagógicos e a formação dos instrutores para que possam acolher emocionalmente os alunos, saber diferenciar e se antecipar às suas dificuldades.
 Investir no relacionamento professor e aluno é outro eixo principal que precisa ser trabalhado com urgência sem que mais tarde o aluno necessite recorrer a pacotões de aulas para habilitados feitos por psicólogos e os chamados "gestores" para que consiga entender para que lado vai a traseira do carro numa manobra.
 Sim leitores, isso pode parecer absurdo para uma pessoa habilitada, mas é a exata realidade do que vem acontecendo: motoristas habilitados que não sabem para que lado  vai a frente ou a traseira do carro quando giram o volante!
 Que ensino da direção veicular é esse que se pratica no Brasil que o futuro motorista que deveria passar por um processo de formação recebe a concessão do Estado para dirigir sentindo-se refém do veículo?
 A prática vem com o tempo, mas acima de tudo, com uma formação adequada sobre os comandos básicos do carro. Não adianta aumentar a carga horária para 40, 60 ou 100 horas/aula porque se o ensino e a aprendizagem não forem revistos, adequados e melhorados continuaremos a ter motoristas totalmente despreparados com a habilitação na mão.
 Ficar nervoso na prova de direção é normal e sugerir que isso seja a causa maior das reprovações é empurrar mais uma vez a culpa pelas reprovações nos testes práticos ao aluno. É rotular o aluno com medo de dirigir, o aluno nervoso, o aluno com medo de ser avaliado, o aluno problemático e blá blá blá.
 Precisamos de menos blá blá blá e mais estudo sério sobre o assunto. Precisamos rever a parte pedagógica URGENTE das autoescolas. Precisamos de profissionais do trânsito comprometidos com o ensino e a aprendizagem veicular. Não dá para continuar tentando resolver o problema com aulas e mais aulas enquanto não aprendermos a como ministrar essas aulas. Mais qualidade e menos quantidade lembra alguma coisa?

Fonte: 

Um comentário:

  1. Em todo Brasil, para isso melhorar teriam que olhar com bons olhos para a classe de instrutores que são explorados pelas autoescolas e obrigados a uma carga horária diária desumana de até 14 horas para poderem ganhar um salário digno para sustentar suas famílias é isso, como um ser humano vai dar uma aula de qualidade trabalhando esta carga horária com apenas uma hora de intervalo, e se não der aula não recebe , dias de prova não recebe e ainda tem que tirar do seu próprio bolso para se alimentar, dai fica difícil para não dizer impossível...

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