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29 de set de 2012

Dar “dicas” ou fazer “provocações”?

postado em 25/08/2012 06:14 por Fábio de Cristo   25/08/2012 16:49 atualizado‎(s)‎ ]


Fonte: http://kalvikalanjiam.com/english/what-know-our-company-interview-tips/
Ao final da uma entrevista, um jornalista
pediu dicas sobre o que seus leitores deviam
fazer para deixar o trânsito da cidade
melhor. O entrevistado pensou um pouco e,
por achar mais apropriado ao público,
resolveu que, em vez de dar dicas, faria
algumas provocações, isto é, colocaria
questões para serem pensadas. Assim foi
feito. A entrevista foi encerrada.

No dia seguinte, inconformado, o jornalista
ligou novamente: “– Professor, muito
obrigado pela sua colaboração; adorei as
provocações. Entretanto, será que o senhor
não poderia dizer algumas coisas práticas para o nosso leitor? Será que não podemos dizer
para eles seguirem o código de trânsito...? O que o senhor acha...?”.

Dar dicas, fazer “provocações” são estratégias distintas que os formadores de opinião devem
ter clareza para aplicá-las com proveito.

As dicas têm a sua importância, especialmente quando relacionadas a situações menos
frequentes ou procedimentos com maior nível de complexidade, como por exemplo, instalar a
cadeirinha infantil e prestar os primeiros-socorros ao acidentado. Estas situações são
incomuns para muita gente e, portanto, dicas e instruções são bem-vindas. 


http://www.bemparana.com.br/noticia/211190/cultura-revitalizacao-do-guaira
Dar dicas fundamenta-se na seguinte ideia: se
as pessoas conhecerem as normas de trânsito,
logo se comportarão corretamente, de
maneira segura. Todavia, nem sempre este
raciocínio está correto, conforme demonstra o
assim como outras imagens na internet.

Quando são muito elementares ou muito
gerais – como, “dizer que eles sigam o código
de trânsito” –, dependendo do nível de
conhecimento do público a que se destinam,
as dicas podem não ser atrativas, motivadoras. Enfim, não agregam conhecimento por que
são indiferentes às pessoas que recebem. Não raro, elas produzem, inclusive, uma reação
aversiva. Quem já não ouviu ironias do tipo: “– Ôxe, e precisava de um especialista só pra
dizer isso?!”.

Até quando, então, os formadores de opinião e alguns de nós, ditos especialistas, vamos

continuar subestimando a inteligência das pessoas? Convém reconhecer que muitos cidadãos,
de fato, sabem o que fazer – se não fazem, são por outras razões.

A legislação de trânsito no Brasil tem mais de 100 anos de existência. Nesse período, três

códigos ajudaram organizar nossos deslocamentos (1941, 1966 e 1997). Muitas regras foram
naturalmente incorporadas no nosso cotidiano, seja por meio das aulas na escola ou autoescola
, seja por meio das experiências cotidianas... Talvez por isso, as dicas soam, às vezes, como se
quiséssemos “ensinar o padre a rezar missa” ou “ensinar o padre-nosso ao vigário”, como se
diz popularmente.

A estratégia da “provocação”, por sua vez, no melhor sentido da palavra, se refere aqui a

promover, estimular, motivar alguma reação positiva que se reflita no comportamento no
trânsito.

Sua importância reside, por exemplo, na possibilidade de produzir, de modo mais eficiente,

uma incompatibilidade ou inconsistência entre uma nova informação e o que o leitor conhece
ou faz. Na psicologia, tal inconsistência é chamada de dissonância cognitiva. (A psicologia
tem palavras complicadas mesmo).

Dito de outra maneira, assim como a fome faz com que busquemos saciá-la, nós também

temos a tendência de buscar resolver a dissonância estabelecida entre o que pensamos e
sentimos ou entre o que acreditamos e fazemos.
Na narrativa acima, é possível argumentar que o jornalista
entrou em dissonância, quer dizer, em conflito consigo por que
as informações que ele recebeu (provocações) não eram as que
ele almejava (dicas). Um desconforto psicológico, então, foi
estabelecido, motivando a busca para reduzi-lo ou eliminá-lo.
Resultado: ele agiu; ligou novamente no dia seguinte.

A provocação pode ser mais interessante do que as dicas,
especialmente nos tempos atuais, em que as pessoas estão cada
 vez mais escolarizadas, conhecedoras dos seus direitos e,
portanto, com a capacidade crítica mais aguçada.

Os jornais cumprem um papel esclarecedor importante sobre o comportamento no trânsito.
Nesta seara, a dissonância cognitiva tem um valor que não deve ser desprezado. Se bem
compreendida e empregada, a dissonância pode ser capaz de produzir autorreflexão e fazer as
 pessoas se esforçarem para buscar coerência rumo ao comportamento seguro no trânsito.

Amigo leitor, diante do que foi dito, peço agora que tente construir sua resposta sobre qual é a
 melhor estratégia: dar “dicas” ou fazer “provocações”? (Sim, estou tentando deixá-lo em
dissonância!).


Para saber mais:
Festinger, L. (1957). A theory of cognitive dissonance. California: Stanford University Press.
 Disponível parcialmente aqui.

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