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24 de jul de 2011

Prudência virou sinônimo de inferioridade

    Antropólogo afirma que condutores consideram o automóvel superior ao pedestre.
 
    ''A cautela é inimiga do motorista brasileiro, quando na verdade deveria ser a melhor amiga dos condutores em um trânsito que se encontra cada vez mais congestionado nas grandes cidades. Para muitos motoristas, que se acham barões e poderosos, a prudência significa que você é um subordinado, um inferior.'' 
 
    Para o antropólogo Roberto da Matta, os condutores brasileiros consideram o automóvel superior ao pedestre e às regras de trânsito. ''O que desconforta os motoristas no trânsito é a igualdade. Obedecer a lei é para quem tem carro velho e não para quem anda em um veículo luxuoso, com câmbio automático e banco de couro'', critica. 
 
    Da Matta, que é autor de livros como Fé em Deus e Pé na Tábua e Como e Por que Você Enlouquece Dirigindo no Brasil, explica que o trânsito reproduz valores de uma sociedade moderna, mas atrelada ao passado. Ele participou em Porto Alegre da 2ª Conferência Estadual de Trânsito, promovida pelo Instituto dos Advogados do Rio Grande do Sul (Iargs). 
 
    Para o antropólogo, o comportamento do jovem no trânsito tem a ver com o tema desenvolvido no livro Fé em Deus e Pé na Tábua, ou seja, parte da ideia de que o jovem tem propensão a se arriscar mais e se achar mais invunerável. De acordo com Da Matta, quando o estudante passa no vestibular, acontece a grande tragédia da sua vida: ele ganha um carro novo de presente. ''Depois os pais vão enterrar este menino e o veículo vira lata velha'', acrescenta. Ele acha que é preciso que os pais discutam temas como o respeito às regras de trânsito e a mistura trágica de álcool e direção no momento em que um filho recebe um veículo de presente. 

    Jornal do Comércio - O comportamento dos motoristas no trânsito está relacionado com a vida agitada de hoje?
 
    Roberto da Matta - No caso do Brasil, sim e não. Quando você combina vida agitada com imprudência e agressividade nas grandes cidades, você arrebenta com todo o processo, porque o risco de acidentes de trânsito aumenta consideravelmente. Não estamos preparados para os conflitos do mundo da rua. Dentro do automóvel, para alguns motoristas, existe uma hierarquia que foi trazida de casa e que ainda não foi desmontada. Ou seja, não temos no Brasil educação para o respeito ao indivíduo. O que causa desconforto nos condutores é a igualdade no trânsito. 

    JC - Por que no trânsito acontecem tantos episódios de violência?
 
    Da Matta - Porque a sociedade brasileira é violenta e durante muitos anos viveu de maneira violenta. O Brasil tinha escravos, uma questão totalmente desumana. A sociedade está embebida em uma cota de violência que a gente nunca discutiu. A gente inventou uma violência de burgueses contra proletários que não existiu, quando na realidade a violência maior era o empregado doméstico e o escravo trabalhando nas grandes fazendas. Isso quando é projetado para dentro dos veículos motorizados resulta em situações de agressividade no trânsito. Na realidade, falta civilidade no trânsito, o que acaba gerando um comportamento universalista dos motoristas.

    JC -  Em Porto Alegre, um bancário atropelou um grupo de ciclistas que realizava um passeio pela cidade. Como explicar esse ato do motorista?
 
    Da Matta - É o surto autoritário do condutor. O bancário surtou como os motoristas que ficam buzinando, como os que ficam irritados com o cara que acha que te fechou, com o condutor que não deu passagem ou com o pedestre que não andou mais depressa que o motorista queria. Os ciclistas naquele momento não eram seres humanos para o bancário, eram, quem sabe, mosquitos. É um episódio muito triste, mas que deve ser sempre relembrado e tomado como exemplo daquilo que não pode ser feito no trânsito. Está na hora de o governo federal introduzir nos currículos das escolas uma disciplina que aborde o respeito ao outro no trânsito. Além disso, é fundamental mostrar aos estudantes, através de campanhas, o máximo de acidentes para formarmos cidadãos mais conscientes.  
 
    JC - Por que é tão difícil a relação motorista/pedestre?
 
    Da Matta - Em princípio uma pessoa está protegida e a outra não está. Além disso, ambos não seguem as regras. Se seguissem as regras, não teríamos tantos problemas no trânsito. Não podemos ter um trânsito civilizado e seguro se você não segue a regra da igualdade, ou seja, cada um tem que esperar a sua vez. No entanto, pedestres e motoristas não têm paciência para fazer isso. Dirigimos de maneira agressiva porque não são realizadas campanhas de trânsito mais eficazes. Por sua vez, os pedestres têm preguiça de caminhar 15 ou 20 metros e atravessar na faixa de segurança. Desobedecer ou burlar é o nosso negócio. Tanto motorista quanto pedestre no Brasil não respeitam as regras de trânsito. 

2 comentários:

  1. Pois é, infelizmente casos como o dos ciclistas atropelados resultam na mesma coisa: Impunidade! Os ricos e famosos sabem que podem fazer o que quiser no trânsito que não vai dar em nada. Mas se não pagar a pensão vai para cadeia! Curiosa nossa justiça....

    Washington

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  2. Então, muitas situações são criadas e muitos fatos são discutidos. Porém o trânsito, entendo ser um reflexo da sociedade e através do qual podemos compreender como uma sociedade se relaciona. Há um total desrespeito:1º das autoridades que tratam o trânsito como política de segunda categoria, 2ºda infraestrutura das vias e da gestão do trânsito que é pensada, em grande parte, por amadores e 3º do comportamento dos usuários que revelam a crise de valores pelo qual passa a nossa sociedade.
    Esta última revela a fragilidade da educação pública face a privada, mas que atende grande parcela da população brasileira e também mostra-nos que a família brasileira passa por transformações a partir de um modelo que a classe média quer impor através dos meios de comunicação, da internet, da TV, do mundo do ter sobre o ser, da geração consumista e "shopping centista". Logo, se na escola e na família não são ensinados os valores básicos para viver em coletividade, como o respeito e a cooperação, ou não ensinados o respeito às regras e às normas ou se a família ensina, mas o mundo apresenta outros valores tal qual o de mercado (competição\lucro), então vivemos uma crise social que de certa forma se reflete no trânsito.Portanto, devemos insistir na ET como promotora de bons valores e de respeito às regras a partir da escola e da família, pois assim poderemos reverter esse triste cenário pelo qual passa o trânsito no Brasil!

    by Veiga, J.

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