Cadastre seu e-mail para receber as atualizações deste blog.

incluir retirar

6 de dez de 2010

Dez anos para corrigir décadas de um trânsito inseguro, por José Mario de Andrade.

No dia 21 de novembro, celebrou-se o Dia Mundial em Memória às Vítimas de Trânsito. A data (terceiro domingo de novembro) foi criada para garantir mobilização da população contra uma violência previsível e confortar os milhões de parentes e amigos das vítimas que sofrem consequências materiais, sociais, emocionais desses eventos trágicos.
Essa foi a forma que a Organização das Nações Unidas encontrou para chamar atenção para uma verdadeira epidemia que acomete o mundo todo. Às mortes no trânsito, que totalizam quase um milhão e trezentas mil, agregam-se 50 milhões de feridos e incapacitados em decorrência da imprudência no volante a cada ano.
Assim como toda epidemia, possui amplo impacto e abrangência, e causa consequências profundas de ordem econômica e social, ligadas a áreas relacionadas ao trânsito, saúde, trabalho e previdência, por exemplo. Então, é preciso deixar de pensar o acidente de trânsito como um fato pontual, uma ocorrência de algo banal. Não caem aviões todo dia, não se travam guerras todo dia – mas as pessoas temem quando acontece. Já o trânsito mata muito mais e os acidentes viários acontecem todo dia. E daí?
Prevalece aquela velha história do “isso não vai acontecer comigo”... Ainda que seja raro encontrar uma pessoa que desconheça entre familiares e amigos um caso de acidente de trânsito.
A grande questão é que, mesmo as ações diretas, como fiscalização e punição, só têm efeito de forma indireta, para estimular as boas práticas e a mudança de comportamento. O motorista de comportamento transgressor sempre vai buscar meios de não obedecer ou burlar leis e a fiscalização.
Clichês à parte, grande parte dessa responsabilidade é do governo, que só passou a se preocupar com essa epidemia de mortes quando o custo dessas vidas absorveu parte significativa de verbas da Saúde, Previdência, e até dos Ministérios do Trabalho e da Fazenda.
Segundo o Ministério da Saúde, 37 mil brasileiros morreram no trânsito em 2008 - outros 100 mil foram internados desde setembro de 2009, conquistando o primeiro lugar no ranking de procedimentos mais custosos ao SUS: são 113,4 milhões por ano. Estima-se que 20% dessas vítimas carregam sequelas para o resto de suas vidas e 4% simplesmente não sobrevivem.
O prejuízo não para aí: são milhares de aposentados por invalidez, custo de conservação das vias, postos de trabalho e uma série de condições especiais que precisam ser criadas para as vítimas.
A parte mais importante desse quadro, a redução dos acidentes e, consequentemente, das mortes no trânsito, são prerrogativas incluídas na Década de Ação pela Segurança no Trânsito – campanha global criada pela Organização Mundial da Saúde. A proposta é simples: a OMS sugere aos países que se comprometam formalmente e definam políticas públicas e ações efetivas em defesa da segurança no trânsito e da prevenção das mortes e dos traumas nas ruas e estradas de todo o mundo. No entanto, o Brasil parece não ter tomado conhecimento: a Década vai começar (2011-2020) e pouco foi feito. O governo brasileiro está respondendo as sugestões (pressões?) da OMS, e começa a reagir com promessas que, esperamos, possam se tornar realidade. O envolvimento da sociedade ainda é tímido.
O Brasil, por sua posição crítica no ranking de acidentes, tem muito a ganhar com ações nesta área. Esse ganho vai refletir não só economicamente, mas também politicamente, afinal, acompanhamos a chegada dos dois maiores eventos esportivos do Mundo e o trânsito está umbilicalmente ligado à logística e bom funcionamento deles.
Não devemos esquecer de que o perigo potencial do trânsito só tende a crescer, pois o volume de veículos nas vias será cada vez maior, o que torna imperioso o cuidado com o controle do fluxo e com a atenção às regras de trânsito. Os acidentes, cada vez mais, geram, além dos custos materiais diretos, custos sociais indiretos que se tornam mais e mais importantes quanto mais complexa fica a sociedade.
No último dia 21, cerca de 60 entidades, dentre ONGS, órgãos de trânsito e empresas atuantes no setor, se reuniram em Florianópolis para abrir os olhos das autoridades: parentes e vítimas estiveram presentes no evento para falar de suas experiências e traumas. Lá, circulou um abaixo assinado pedindo que a Década fosse colocada em prática aqui.
Mesmo com a mobilização na capital catarinense, foram reunidas apenas oito mil assinaturas. Mais uma vez: mesmo as ações diretas – a população pedindo que o governo tome uma atitude – têm efeito indireto. Esse material será encaminhado ao Congresso, para que os parlamentares analisem e verifiquem que propostas podem ser apresentadas.
Nessa linha, parecemos nos esquecer de um ponto mestre no quesito gerencial de toda essa questão: mais do que se gasta, o que se deixa de ganhar passa a ser um componente vital, uma vez que em nosso estágio de mundo atual, deixar de gerar receitas causa um colapso nos compromissos gerais da sociedade. José Mario de Andrade é engenheiro especialista em trânsito e diretor da Perkons. Fonte: http://www.perkons.com/?page=noticias&sub=opiniao&subid=578&pagina=1 - Acesso em 06/12/2010

Nenhum comentário:

Postar um comentário