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7 de abr de 2010

Gentileza gera gentileza

"... depois da mudança, meti-me em automobilismo. Comprei um Ford e já ando a perturbar o trânsito da cidade. Ontem, dei o primeiro tranco numa carroça, mas ainda não esmaguei nenhum pedestre. Curiosa a mudança de mentalidade que o automóvel ocasiona. O pedestre passa a ser uma raça vil e desprezível, cuja única função é atravessar as ruas. Quem adquire um auto promove-se de "pedestre" a "rodante" - e passa a desprezar os miseráveis pedestres que se arrastam pelas superfícies, como lagartas. Quando estropia um pedestre, a sensação do rodante é de que libertou o mundo de um embaraço. E diz o Felinto Lopes que, quando um chauffer de praça vê vários pedestres formando um grupo na rua, infalivelmente lança o auto em cima, porque mata dois ou três com a mesma gasolina".
Como se nota na carta do escritor Monteiro Lobato a Rangel (1923), a mentalidade distorcida a respeito do organismo delicado que o trânsito compõe vem desde os primórdios da história do automóvel. É interessante como essa visão, após centenas de anos e campanhas de conscientização, segue a mesma linha.
O sinônimo de status que o carro proporciona, aliado ao dia a dia agitado e exigente dos grandes centros urbanos, acaba sendo fonte rica de estresse, intolerância, desgaste, impaciência, falta de educação, que geram como consequência natural desse cenário a falta de gentileza e violência.
Uma pesquisa realizada em parceria com o Movimento Nossa São Paulo e o Instituto Ibope revelou que quem mora em São Paulo gasta, em média duas horas e quarenta e três minutos somente de deslocamento na cidade. Que tal praticar, durante este tempo atitudes simples, que, na verdade, deveriam estar intrínsecas ao trato com o próximo? Dar preferência ao pedestre, deixar o outro motorista entrar na fila, ter paciência, usar cinto de segurança e respeitar os limites de velocidade são algumas dessas atitudes que fazem grande diferença.
O comportamento agressivo adotado por motoristas ganha veracidade quando observamos os dados apresentados pelo último relatório divulgado pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM): segundo a pesquisa, baseados em dados do DPVAT, em 2008, mais de 57 mil vidas foram ceifadas no Brasil somente em acidentes de trânsito.

A impunidade e fiscalização por amostragem deixam os motoristas se sentindo livres para desrespeitar as leis. Essa falta de consciência nas vias é responsável pelo estímulo desse comportamento perverso.
São milhões de automóveis circulando todos os dias e o incentivo do governo para o desenvolvimento da indústria prevê o montante de 2 bilhões no mundo todo até 2030. Ou seja, o que foi criado para facilitar a locomoção virou símbolo do consumismo.
O que a matemática fria das estatísticas não traduz é o trauma, o choque com que a família e os amigos das vítimas precisam conviver, bem como as consequências para o condutor que sobrevive. São muitas as discussões e propostas em torno do tema, mas parece que estamos esquecendo do mais importante: quem pratica gentileza, recebe gentileza em troca.
A raiz do problema se concentra na falta de convivência e coexistência; no saber se relacionar. Que exemplos estamos passando para as futuras gerações? Todos os ensinamentos de solidariedade e respeito ao próximo acabam na primeira buzinada ou sinal vermelho ultrapassado.
Estamos acostumados a assistir nos telejornais acidentes horríveis, com várias mortes e encarar como fatalidade. Esses "calos" na sensibilidade quanto ao valor da vida resultam num processo prejudicado de convivência.
Essa atmosfera de violência gerou um efeito sinistro. E, já que, mesmo com mecanismos de monitoramento 24 horas, controladores de velocidade e todas as tecnologias desenvolvidas para própria segurança dos pedestres e motoristas, o Estado tem dificuldades em gerir as estatísticas de mortes no trânsito, talvez a solução esteja numa revisão dos conceitos quanto à educação.

O processo de convivência não melhorou: na relação de poder entre quem tem carro e quem anda a pé, o pedestre ainda sai perdendo e, talvez, porque também não faça sua parte, desrespeitando as regras de trânsito. Dessa maneira, é preciso manter controle da nação para que se exija o respeito ao que deveria ser nato.
Somos avessos por natureza ao controle e tendemos a fugir da punição. Por que seria diferente no trânsito? A questão é: até quando vamos nos permitir matar e morrer por um deslize? Por que alguém bebeu e achou que tinha condições de dirigir, por que ignorou o sono e pegou a estrada, dentre tantas outras situações?
A ideia é conscientizar o motorista mostrando que a legalidade, expressa em regras e normas de trânsito, e a convivência pacífica nas vias urbanas valem a pena, porque podem valer uma vida.

Os números apresentados pela CNM expressam a necessidade urgente da discussão de políticas efetivas para diminuí-las, mas, principalmente, de semearmos o despertar de uma consciência de que solidariedade e gentileza, que costumam serem ignoradas pela sutileza que representam, fazem sim toda a diferença quando o assunto é trânsito.
Não estamos em uma guerra em que o motorista bombardeia o pedestre e é perseguido pelos órgãos de fiscalização. Uma mudança de atitude, mesmo que tardia, se faz necessária. Enquanto isso, mais pessoas morrem em acidentes de trânsito. Lembre-se: gentileza gera gentileza.

José Mario de Andrade, diretor de Negócios Internacionais da Perkons - empresa especializada em tecnologia para a segurança e gestão integrada de tráfego. A empresa foi pioneira na criação de lombadas eletrônicas, desde 1992. A Perkons atua no desenvolvimento de produtos e projetos que ofereçam soluções tanto para a segurança quanto para uma gestão completa do trânsito. O compromisso da Perkons com a segurança no trânsito vai além da oferta de tecnologias - o programa de responsabilidade social da empresa é focado em projetos que promovem a prevenção de acidentes de trânsito e a disseminação de informações que incentivem o debate e a conscientização sobre o tema. 

Os artigos para a Seção Opinião podem ser encaminhados ao e-mail contato@perkons.com.

Os textos publicados não refletem, necessariamente, a opinião da Empresa. 
 
Fonte: http://www.perkons.com.br/?page=noticias&sub=opiniao&subid=462 (acessado em 07/04/2010)

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