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10 de jan de 2010

Especialistas apontam medidas para diminuir mortes no trânsito

Reportagem especial mostra como cada motorista brasileiro pode ajudar a tornar ruas e estradas mais seguras.

No início do ano, as chuvas em Angra dos Reis, no estado do Rio, mataram 52 pessoas, uma tragédia que comoveu o país. Mas existe outra tragédia, que parece invisível, mas que mata o dobro de brasileiros a cada dia. São pelo menos cem pessoas que morrem diariamente nas ruas e estradas do país em acidentes de trânsito. Veja na reportagem especial de Sonia Bridi. Início da Belém-Brasília, a BR-316, na sexta-feira passada, final da tarde. Este trecho de 20 quilômetros da Região Metropolitana de Belém é o que mais mata no país, segundo a Polícia Rodoviária Federal.

Nas quatro horas em que o Fantástico acompanhou o trabalho dos policiais em Belém, aconteceram dez acidentes. “Não vai dar para chegar no acidente que a estávamos indo porque já temos outro aqui”, mostra o policial. Infelizmente, um dos acidentes teve uma vítima fatal. Sob o lençol, Francisco da Silva, trabalhador a caminho de casa, depois do serviço. Pare um instante e pense: quantas pessoas você conheceu que morreram no trânsito?

No tempo de duração do Fantástico, mais dez terão perdido a vida nas estradas, ruas, avenidas do Brasil. São no mínimo quatro por hora, cem por dia. O Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) estima que foram 32.465 mortos em 2008. Já o Ministério da Saúde tem outro número: 37.585. Mas a soma pode ser bem maior. O especialista em trânsito Silvio Médici fez o cálculo a partir dos casos de mortes em que foi pedido o DPVAT, o seguro obrigatório pago a vítimas de trânsito: “É o que eu chamo de genocídio sobre rodas. São 62 mil mortos, na nossa avaliação, por ano, em acidentes de trânsito no Brasil”.

 Veja as cinco principais causas dessa matança, apontadas por pesquisadores e órgãos públicos: álcool, cansaço, desrespeito à sinalização e imprudência, excesso de velocidade e impunidade e falta de fiscalização.

Álcool 

Voltamos a Belém, no Pará, na mesma sexta-feira à noite. Jovens bebem num posto de gasolina. A moça termina uma garrafa de coquetel de vodka, pega o carro e sai. É seguida por nossos produtores. “Não bebi antes de dirigir. Tenho certeza absoluta”, garante a jovem.

Fantástico: Se você tiver que apontar só uma causa do seu acidente, qual é a principal?
Orlando Silva: O álcool, a bebida. O motorista estava embriagado. Há cinco anos Orlando Silva tenta retomar a vida, com a coluna lesionada. “Fiquei três meses e onze dias no hospital. A cirurgia que eu fiz custou R$ 47 mil”, diz. Tratar feridos é apenas uma parte do custo de R$ 28 bilhões por ano que o país tem por causa da violência no trânsito.

Fantástico: O seu amigo, que estava dirigindo o carro, continua bebendo?
Orlando: Continua. Bebendo e dirigindo.

Fantástico: Qual a profissão dele?
Orlando: Motorista de caminhão. Um ano e meio depois de entrar em vigor, a Lei Seca produziu resultados fortes no Rio de Janeiro, onde a fiscalização é constante. Em 2009, o número de mortos e feridos no trânsito do Rio de Janeiro caiu quase 30% - foram 3.700 vítimas a menos.

Cansaço

 “É muito comum, em um feriado prolongado, por exemplo, a gente ver a pessoa que passou o dia inteiro trabalhando, chega em casa, junta a família, já está esgotada, bota toda a tralha dentro do carro e depois vai pegar horas de trânsito. As consequências vão aparecer. Fora aqueles que trabalham na estrada, que vivem em regime de escravidão”, afirma o especialista em trânsito Rodolfo Rizzotto. A pedido do Fantástico, Silvério Garbuio, do Instituto do Sono de São Paulo, avaliou os caminhoneiros. “Paro para descansar umas duas horas, duas horas e pouco. E volto a dirigir por umas 17 horas, 18 horas sem parar”, admite o caminhoneiro Adelmo Jung. “Vim do Mato Grosso do Sul. Foram umas 19 horas direto”, conta o caminhoneiro André Oliveira Bispo. “Eu quebro tudo no murro, no soco. Dá pesadelo. Essa noite eu acordei com barulho do caminhão danado. Pensei que o caminhão estava descendo a ladeira, nossa senhora, agarrei esse caminhão no freio, quando acordei estava agarrado no volante”.

Desrespeito à sinalização e imprudência 

Em São Paulo, o Fantástico pegou uma carona com o piloto César Urnhani e com José Aurélio Ramalho, especialista do centro de experimentação e segurança viária. “Se você olhar aquele carro ali na frente, ele está vindo na contramão para querer atravessar. Na verdade ele teria que ter continuado nessa via, procurado um retorno pra poder entrar”, mostra o piloto César Urnhani. “Dirigindo o carro com uma mão só, a mão direita está sobre o volante, ou seja, se ele precisar fazer um desvio de emergência, vai perder o carro de controle. A posição correta é com as duas mãos no volante”. “Quem provoca a morte, o acidente com morte, em regra, é a imprudência do motorista: 4% apenas das mortes que acontecem no país em rodovias federais aconteceram em estradas esburacadas. E 96% das mortes acontecem em pistas com trecho bom”, avalia Alexandre Castilho, inspetor da Polícia Rodoviária Federal.

Excesso de velocidade

O Fantástico fez um teste com um radar móvel para mostrar como os motoristas são imprudentes quando acham que não estão sendo vigiados. Em uma avenida da Zona Oeste do Rio de Janeiro, os carros reduzem a velocidade, alguns até em cima da hora, quando se aproximam do radar fixo. Depois, posicionamos o radar 500 metros adiante. Passado o risco de multa, todos aceleram. “O motorista acelera mais ainda, que é para compensar aquele período que perdeu, aquele espaço de tempo que ele diminui a velocidade e causando mais riscos de acidente na frente”, diz Médici. Em maio do ano passado, um deputado estadual foi o responsável pela morte de dois rapazes. Fernando Carli Filho dirigia embriagado, de madrugada, num bairro de Curitiba, avançou o sinal a 170 km/h e bateu no carro que conduzia os jovens. Carli Filho tinha perdido o direito de dirigir por causa de 30 infrações, 23 delas por excesso de velocidade. O deputado foi indiciado por duplo homicídio. O julgamento está marcado para o mês que vem. Ele aguarda o julgamento em liberdade.

Impunidade e falta de fiscalização “Quando ela tinha 9 anos, escreveu ‘Eu amo a vida’”, lembra Roni Barbosa, pai de Juliana, vítima do trânsito. A vida dela terminou aos 15 anos. A saudade não diminui. Mas o pai pode afirmar: “No caso da Juliana, eu posso dizer que houve Justiça, não houve impunidade”. Juliana foi morta em uma via expressa em Florianópolis. O carro no qual ela estava com o namorado foi atingido por outro, que disputava um racha. “O principal fator responsável pela condenação neste caso foi a mobilização popular. A participação da população em atos públicos, mostrando indignação e também exigindo a punição dos culpados”, lembra Roni.

Levados a júri popular, os dois rapazes foram os primeiros, na história do Brasil, a ir para a cadeia condenados por crime de trânsito. “Punir é uma forma de educar. No trânsito, nós temos que punir para educar”. Mas a cadeia para criminosos do trânsito ainda é rara no Brasil. “É recurso mais recurso, ficam cinco anos no processo, e quando vai a julgamento, aí você tem que pagar cem cestas básicas; matou cinco pessoas de uma família, e ele paga isso aí, cem cestas básicas, e está solto”, critica Médici.

A morte de Juliana levou à instalação de nove radares fixos, os chamados pardais, ao longo de oito quilômetros da avenida. “Antes da instalação, nós tínhamos para cada 10 mil veículos que circulavam 2 mil infrações de avanço de sinal vermelho ou de excesso de velocidade. Hoje essa estatística caiu para 3 em cada 10 mil”, compara o presidente do Instituto de Planejamento Urbano de Santa Catarina, Átila Rocha dos Santos. O número de mortes caiu 90%. “Foram salvas 45 vidas em dez anos por esse sistema”, comemora Átila.

Também em Santa Catarina, um exemplo contrário. Uma lei mandou tirar os radares das rodovias estaduais, por entender que os pardais eram uma indústria de multas. “Nós tínhamos reduzido em 72% as mortes. Com a retirada deles tivemos um absurdo aumento de mais de 50% nas mortes”, calcula o comandante da Polícia Rodoviária Estadual de Santa Catarina, coronel Paulo Moukarzel. Nos 3,8 mil quilômetros de rodovias estaduais de Santa Catarina havia apenas 20 pardais, mas eles conseguiram reduzir em 70% o número de mortos porque estavam nos trechos mais perigosos. Agora eles podem ser substituídos pelos radares portáteis, só que para a operação do radar é preciso mobilizar pelo menos cinco policiais. Em 24 horas por dia, são 15 policiais. Vezes 20, 300 policiais - e isso é 60% de todo o efetivo da Policia Rodoviária Estadual.

No Japão, o índice de mortes por cem mil habitantes é de 4,72. Na Alemanha, 5,45; França, quase 7; Itália, 8,68. Nos Estados Unidos, o índice passa de 12. No Brasil, salta para 17. Os números em outros países nem sempre foram bons. As melhoras foram conquistadas. Nos últimos seis anos, o número de mortos nas rodovias italianas caiu 46%. Na França, diminuiu 44%. Na Itália, foram espalhadas câmeras especiais que medem a velocidade média dos carros e colocado muito asfalto antichuva, que evita a derrapagem. Na França, além das câmeras que flagram o excesso de velocidade, foi feita uma grande campanha de conscientização. Nos dois países, o limite de velocidade é de 130 km/h. Um dado espantoso vem da Alemanha: o número de mortos nas estradas em 2009 foi o mais baixo desde 1950. Isso em um país que não tem limite de velocidade em 45% das rodovias. As razões são a excelente qualidade das pistas e o extremo respeito dos alemães pela sinalização. Em um bairro boêmio de Tóquio, todas as noites, principalmente depois da meia-noite, há muito movimento. As pessoas saindo dos bares, as ruas lotadas, mas praticamente só tem táxis. Os japoneses bebem, mas não se arriscam a dirigir. É que as leis são extremamente rigorosas. Quem dirigir depois de alguns goles pode pegar cinco anos de cadeia.

Os acompanhantes podem ficar presos por até três anos. Resultado: as mortes no trânsito no Japão caem há nove anos seguidos. Em 2009 morreu mais gente andando de bicicleta no Japão do que em acidentes com motoristas bêbados. Entre os países desenvolvidos, os Estados Unidos têm um dos índices per capita mais altos de morte nas estradas. Mas esses números vêm caindo. Em 2009, pela primeira vez ficou abaixo de 40 mil mortos. O principal motivo dessa queda é o rigor contra os motoristas alcoolizados. A cada ano, cerca de 1,5 milhão de americanos são presos por dirigirem embriagados, perdem a licença e, se tiverem antecedentes, vão para cadeia. No estado de Nova York, a pena de prisão é automática se houver alguma criança no veículo. Desde 1980, quando as primeiras leis contra os motoristas embriagados foram adotadas, o número de mortes causadas por eles caiu pela metade.

 Como cada motorista brasileiro pode ajudar a tornar o trânsito mais seguro? “Muitos motoristas entendem, por estar na velocidade da via, que devem e têm o direito de ficar na pista da esquerda. Por mais que o que vem atrás esteja numa velocidade acima da via, você deve ceder a via para que ele promova a ultrapassagem”, recomenda o piloto César Urnhani. “O pedestre tem um comportamento, porque se sente vulnerável. No entanto, na hora que ele entra dentro do carro, acha que está armado. O que é um congestionamento numa rodovia? É uma fila, como é uma fila de banco. Quem chegou primeiro vai ser atendido primeiro. Por vezes você tem o quê? Tem a pessoa cortando essa fila”, observa Urnhani. “Se você, motorista, identifica que a via tem um problema, já tem um problema. Não piore o que já está ruim. Diminua a velocidade. É a mesma coisa numa situação de chuva. A via fica escorregadia. Depois não adianta transferir o problema para a via”. “A via é muito bem sinalizada, dizendo com antecedência a saída da via. Então cabe ao motorista se antecipar, correto?” “Exatamente. A sinalização por si só ela já está com bastante antecedência. Se antecipe ao que vai fazer, não deixe pra fazer no último minuto”. “Quanto mais os carros ficarem intercalados, sempre melhor. Por exemplo: eu agora estou refém do carro da frente. Se eu vou à direita, eu passo a enxergar exatamente o que ele enxerga lá na frente, ou seja, eu amplio a minha visão periférica. Eu estou embutido atrás desse carro. O que eu faço? Eu fico aqui à esquerda. A situação de risco diminui muito. Se ele frear, seja por um dado motivo, eu consigo enxergar esse motivo. E me antecipo. Tudo que você tem que fazer é tentar ampliar a sua visão”. “O trânsito não aceita erro. Você pode ter dirigido 30 anos sem nenhum problema. Mas um único problema é o suficiente pra acabar com a vida de uma pessoa, acabar com a sua vida”.

  Fonte: 
http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL1441697-15605,00-ESPECIALISTAS+APONTAM+MEDIDAS+PARA+DIMINUIR+MORTES+NO+TRANSITO.html (acesso em 10/01/10)

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