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27 de nov de 2009

O motorista e o monstro

27/11/2009
Está tramitando na Câmara Federal um projeto de lei fazendo novas alterações no Código de Trânsito, tornando-o mais rigoroso, dado que após uma diminuição inicial, os acidentes e desrespeitos no trânsito voltaram a crescer em número e gravidade. A propósito, na década de 1970 o Senai obteve autorização para reproduzir e aplicar um curso americano de direção defensiva. Dividido em oito módulos de 2 horas, bastante participativo e com um filme apropriado para ilustrar o conteúdo de cada unidade, o curso era iniciado com um filme extra chamado O Motorista e o Monstro. Era uma imitação do filme “O Médico e o Monstro”, de 1941, estrelado pelos inesquecíveis Spencer Tracy e Ingrid Bergman e baseado no livro, de mesmo título, do escocês Robert Louis Stevenson, de 1886. No filme do curso o motorista faz o duplo papel de pessoa normal e de monstro. Um senhor bem vestido sai da porta do escritório, rente à rua, e tromba com uma mulher carregando pacotes do mercado. Apressa-se a catar os pacotes e pede mil desculpas. Mais à frente cruza com algumas crianças e acaricia-as, passando a mão na cabeça. Revela uma educação esmerada. Chega ao carro, entra, e quando dá a partida começam a nascer os pelos e crescer os caninos. Vira um lobisomem. Daí para a frente comete todas as infrações de trânsito possíveis e xinga outros motoristas e pedestres. Chegando à casa, ao desligar o carro volta a ser gente e sai abraçando a mulher e os filhos, como um marido e pai extremado. A finalidade do encaixe desse filme no início do curso é uma preparação do espírito do treinando para um fenômeno muito comum entre as pessoas que dirigem veículos. Seria uma espécie de dupla personalidade, uma fora e outra ao volante. Fora do volante a pessoa é educada, gentil, respeitosa e ao assumir a direção se torna impaciente, intolerante, agressiva, irreverente. Talvez, como pedestre predomine a sensação de possível vítima ao atravessar uma rua; ao ficar num ponto de ônibus, onde tem havido atropelamento coletivo, e em outras situações onde corre perigo. Nessa situação, também se torna observador e crítico do mau comportamento dos motoristas, ao presenciar excesso de velocidade no meio de transeuntes; estacionar frente a acesso de cadeirante ou em estacionamento para idosos e outros desrespeitos às pessoas. Ao volante surge a outra personalidade, com a sensação de poder mais que os outros e faz exatamente tudo o que condena fora do veículo. Para o curso, “direção defensiva ou dirigir com perfeição significa que você realiza cada viagem sem acidentes; sem infrações de trânsito; sem abusos do veículo; sem atrasos de horário e sem faltar com a cortesia devida.” Sua filosofia é a de que “não importa quem é o culpado e quem está certo, e sim, quem poderia evitar o acidente.” Mas veja que o conceito termina com a expressão “cortesia devida.” Além de dirigir de forma correta, evitando acidentes e outros transtornos, é preciso, também, que o motorista seja cortês. Um ex-delegado, que gostava de promover a Semana do Trânsito, todos os anos, perguntado sobre como fazer para que houvesse mais educação no trânsito, respondeu: “Nós podemos ensinar a dirigir de forma correta, para evitar os acidentes, mas a educação o motorista deve trazer de casa.” Esse é um item crucial, porque a falta de educação, muitas vezes, faz com que o monstro continue depois de desligar o carro. As longas discussões de antigamente, que terminavam com um acordo conduzido pela polícia, hoje são curtas e a polícia é chamada para registrar o assassinato. O tiro no peito é o argumento definitivo. O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras Pedro Grava Zanotelli Fonte: http://www.jcnet.com.br/detalhe_opiniao.php?codigo=171321 (acesso em 27/11/09)

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